Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos


Lavra Palavra

Palavras são pessoas. Alguém já pensou no existir de um mundo de não se falar, como se encanto tivesse havido provocante de um geral esquecimento de se prosear? Homem e mulher será que bem viveriam no silêncio do nada dizer e de nenhuma palavra escutar? Consigo imaginar doideira assim não.

Há quem pense, falsamente, que natureza masculina e feminina são mundos opostos. Mormente as diferenças da mulher e do homem se dão no perceptível das partes de fora. Nas de dentro se é farinha do mesmo saco. é no quando de se empacotar que vão se fazendo de dois jeitos bem complementares.

Casadinhos uns com os outros, será possível de se ver que os uns têm umas coisas, que as outras não são possuidoras e isto tudo sabe para quê? É por modo o mundo não ficar vazio do humano. Daí que um vai indo e o outro vem vindo, cada qual querendo possuir um tanto da intimidade do outro. Esse aconchego começa e se acaba nas palavras, não é? Isso é certeza que não consigo compreender bem, mas que sinto ser do reino das delicadezas de Deus.

No por dentro de si cabeça tem pouco poder. O que cisma de mandar mesmo é coração e se ele desmanda, aí é que o mundo desanda. Jeito de o coração dar ordens sabe qual é? Pois ocorre com o empalavramento do que está sentindo. Verdade é que moram dentro do coração milhões de palavras guardadas. Tem quem use, seja macho ou fêmea, desse tesouro palavral de forma cuidadosa e há daqueles que falam pelos cotovelos e por isto, aquilo que dizem acaba perdido por aí. Viram simples vocábulos. Esses são deveras raquíticos e incapazes de significar grandes coisas.

Palavra é para ser dita na hora e medida certas. Vem chegando cisco de poeirinha de nem ser ninharia. É como a água que vem do escondido da terra. Nasce no fififi do entre pedras, sai numas gotinhas de quase nada, para se fazer lá longe, bem no adiante, mar. Brota da boca uma palavrinha só e quando se assusta olha a imensidão de significados que elas foram ganhando. Palavra é ovo de passarinho. Tem casca fina. Há que manuseá-las no mimo dos cuidados.

Palavra se lavra para encontrar as jóias em meio ao cascalho. Serviço de muito suor na bateia. Palavrear não é cuspir ar que vem da garganta. Muitos acham que seja, mas se enganam. É caso de ampla responsabilidade. Não é mesmo que no outrora nem era preciso escrevê-las. O dito considerava-se como o havido e tratado. Simplesmente assim e ponto final. O que carecia para adiante era tão somente prover seu devido cumprimento.

Palavras são do masculino e do feminino. Não carecem de ser posse de um ou do outro. Seres viventes do território do coração, que é onde ficam existindo num falatório danado de constante relembrar, que é para não se esquecerem daquilo que devem sempre significar. Lá balançam no tumtumtum que coração tem. Parece que há umas tais que acabam sofrendo de enjôo. Enfaradas dão seus jeitos de escapar para outros cantos da pessoa, nadando nos rios de sangues que por ali sempre passam.

Nessas fugas têm palavras que vão se esconder no amargoso que há no interior das gentes. É do fígado então que vêm brotando essas tais desatinadas e selvagens. Existem inclusive as que saem com aparência bonita, mas ao se olhar melhor se enxergará que são feiosas e nem geram as felicidades, que são as finalidades primeiras que devem de ter. Tem gente que diz que vêm do demo e que nome delas é palavrão. Por isso é que se costuma dizer que são mal ditas. A verdade é que no depois delas passarem, ou vem inundação ou seca. Uma e outra são calamidades de carregar nas costas tristeza e aflição.

Sabedoria que ninguém será capaz de contestar é viver na eterna experiência de saber, que se é dono de palavras de se dizer e outras de se calar. Falar e guardar silêncio por mais que se tenha vivido, será sempre belo aprendizado. Pessoa descuidada de tal tirocínio ou perde por calar, ou se desgraça no tagarelar.

Palavra boa mesmo é aquela de se dizer baixinho, só sussurradamente para quem é dono de dicionário capaz de traduzir o real sentido que ela carrega, não no vozerio, mas na alma do se total compreender. Seria essa a tal bem dita aquela que se ouve pela boca num jantar festejante de tão bem se engolir saborosamente? Não nesse sentido do humano, mas muito mais no tal bovino, trabalhando para que vá e volte em contínuo passeio pelas entranhas, até que já se possa afirmar que viva no real da pessoa para sempre.

Essas tais palavras estão na raiz do todo. Daquilo que se sabe e também dos mistérios que ainda são imperceptíveis aos sentidos. Será que posso dizer que seriam divinas? A Palavra é das bandas do amor, do se darem por completo quando ocorre delas se transmutarem em estrelas. Quando, ao contrário, dão nos escuros da noite de breu é porque se foi incapaz de se perceber o real sentido da beleza nelas existentes. Aí o mundo se desfaz. É o império do desentendimento, as babéis. Reinado das confusões e as tais bagunças do mau proceder.

Vou assuntando assim profundo, pois que no Livro Santo se ensina que no princípio é o Verbo. Palavras então devem de ser eternas. Todo o palavreado desde Adão continua envolvendo o mundo. Falar verdadeiramente é se apanhar emprestadas lá de dentro do coração um tanto delas. Existe palavra novata? A que se fala hoje no ontem foi dita e no amanhã outra boca a soprará. Palavra é santo empréstimo de Deus. Adentram o coração e dão de namorar as que lá já havia. Palavra boa é geradora de umas novas. A vida se refaz sempre.

 
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 06/11/2011
Alterado em 11/02/2016
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