Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos


O cheiro do Amor 

Um nonarca muito bom reinava num lugar bem distante daqui. Era verdadeiramente atencioso com seu povo. Por lá não havia criança sem escola, a saúde era disponibilizada para todos e não se tinha que preocupar em trancar portas, ou mesmo sair de noite. O rei amava, sem discriminar ninguém, a cada um dos súditos e recebia de volta, ele e a raínha, muito carinho e amor por parte da sua gente agradecida.

Ah, como teria sido bom se as coisas por lá continuassem sempre assim. Só que a vida real costuma ser diferente. O rei vivia um sério problema familiar e isto muito o angustiava. A idade já lhe pesava e via se aproximar aquele momento solene, de passagem da administração do país ao filho.

Fosse este jovem semelhante ao pai estaria tudo às mil maravilhas. Só que não era assim. O príncipe era orgulhoso e metido a besta. Não dava atenção às pessoas, principalmente àquelas mais simples. Possuia verdadeiro horror ao trabalho e só se preocupava com futilidades. Era enfim egoísta e bobo. “Um chato de galocha” avaliou a velha empregada do castelo após haver sido humilhada por ele.

O rei matutava, lá com seus botões, tentando encontrar o ponto no qual errara na educação do rapaz, para que saísse assim tão malcriado. Ao mesmo tempo, dava tratos à bola na tentativa de encontrar um jeito de fazer com que ele acordasse para a vida e as responsabilidades inerentes ao papel de futuro rei.

Um dia o monarca chamou o príncipe e lhe falou assim:

- Meu filho, seu pai vai ficando idoso. Daqui a pouco não terei forças para conduzir o reino. Na verdade deveria transferir, orgulhoso, tudo para você, mas os exemplos que tem me trazido, mostram-me seu despreparo para assumir a coroa. Sendo assim, lhe darei um desafio. A descoberta do cheiro do amor. Deverá partir em busca desse odor todo especial e somente retornará quando o tiver reconhecido. Caso demore na busca, constituirei um regente para assumir, quando diminuirem demais minhas forças, ou ver que é chegada a hora da minha morte. Será alguém que conheça o cheiro do amor e assim poderá também avaliar se almejou encontrá-lo. Só um príncipe capaz de reconhecer o cheiro do amor estará apto a dirigir o meu povo.

O príncipe, rápido, retrucou:

- Mas isto nem se configura em desafio. Hoje mesmo trarei ao castelo esse tal cheiro. Aliás, acho que o encontrarei aqui dentro mesmo.

O rei sorriu sem graça, de um jeito que não conseguia esconder o desâmimo. É que estava tomado de grande medo de que o filho, tão amado, jamais encontrasse esse perfume tão precioso. Abençoou o herdeiro para que saísse o mais breve possível no cumprimento da missão.

Ao notar que ele estruturava grande comitiva com vassalos, guerreiros e os melhores animais da cavalariça o soberano se quedou ainda mais chateado. Em sua imaginação pensara que seu filho iria sair, como todo herói, solitário para atender à meta. Lembrando-se de que faltara algo importante, disse-lhe:

- Recorde-se de que a tarefa é só sua. Poderá levar gente junto, mas deverá ser você aquele que experimentará o cheiro do amor.

O rapaz assentiu e de imediato, bem confiante, saiu da presença do rei.

- Uma pena. Desse jeito, mais parecendo partir para uma batalha, ele terá ainda mais dificuldades em perceber e sentir o que está indo buscar.

Foram as palavras sussurradas à rainha, sem nem esconder as lágrimas a lhe rolarem pelo rosto. Mas este era um rei bom e uma das características das pessoas assim é que sempre acreditam nas outras, por mais que elas os decepcionem. O pai sempre acredita no filho, pensou balançando assertivamente a cabeça.

No ínício daquele ambicioso projeto foram procurados pelo príncipe os perfumistas do reino. Ao verem a cavalgada com tantos cavaleiros, se assustaram pensando ter sido declarada nova guerra, ou pior, que seriam aumentados os impostos. Dessas visitas saiu frustrado. Nenhum dos fabricantes de essências conhecia, ou mesmo ouvira falar de tal cheiro.

Então se lembrou das grandes celebrações. Sem dúvida que o cheiro do amor estaria nelas. Nos salões suntuosos onde a nobreza e os ricos bailavam, despreocupados dos problemas básicos da vida, haveria de encontrar tal cheiro impregnado. Encomendou enorme festa. Uma que fosse ainda maior do que o mais famoso baile acontecido no país.

Mandou trazer de um reino famoso por sua música os mais renomados artistas. De outro, reconhecido pelo sabor das iguarias, trouxe os cozinheiros. Os salões foram decorados com o que havia de melhor e de mais bonito por lá e no exterior.Toda a nobreza não só dali, mas dos demais reinos amigos estava convidada.

Só o rei e a rainha não foram. De tanta tristeza nem precisaram arrumar desculpa. Adoeceram profundamente ao constatar tanto desperdício por nada, eis que naquele ambiente carregado de futilidade o cheiro do amor não estaria.

O príncipe contratara para o acompanhar, oriundos dos laboratórios dos perfumistas, cinco cheiradores profissionais, possuidores de olfato apuradíssimo. Seu trabalho seria o de encontrar, naquela noite de fausto, o tal cheiro. Era gozado vê-los andando pelos ambientes, narizes em pé, bem arrebitados, na tentativa de farejar esse desconhecido perfume. Tudo em vão.

A noite se foi e nenhum odor diferente pôde por eles ser cheirado.
O herdeiro já estava ansioso. O fato de que a missão, antes considerada simples, ia se configurando em problema com ares de insolúvel, o enraivecia.

A impaciência e falta de educação crescera demais. Tornou-se insuportável. Os cavaleiros e empregados, aflitos, arrumavam desculpas para retornar aos seus trabalhos, ou ao castelo para se verem livre dos terríveis humores e até mesmo da violência do príncipe.

Foi então que ficou sabendo existir no alto da maior montanha do reino, uma planta cuja flor era chamada: a flor do amor. Então, inteligente que era, observou que se tinha tal nome era porque possuía dentro dela o tal perfume tão buscado. Bem ligeira a expedição mudou de rumo. Seguiram todos na direção da montanha.

Não era nada simples chegar até ela. Havia em sua volta perigosa floresta repleta de animais bravios, bem como grandes rios, praticamente impossíveis de serem atravessados, eis que era impensável o transporte de canoas com eles. O príncipe sentia muita raiva do pai por obrigá-lo a tantas dificuldades e por tê-lo proibido de delegar a missão a algum empregado. A ira que sentia chegava ao tamanho do ódio, ao se dar conta de que aqueles que alcançavam jeito de irem embora, terminavam acolhidos de braços abertos pelo rei.

Nos tempos de se visitar perfumarias e participar de festas, mesmo se levando em consideração a estupidez do príncipe, ainda dava para participar. Agora, entrar na mata cheia de perigos por alguém que jamais os havia considerado, era demais. Com isto a debandada aumentou sensivelmente. Ao final só três puxa-sacos se mantinham junto ao jovem.

Apesar de tudo jamais iria desistir. Que graça teria em viver sem ter como financiar as viagens, festas e comidas finas? E o problema é que somente teria em mãos as chaves do tesouro depois de coroado rei. Eram reflexões assim que o animavam a perseverar.

Enfim adentraram mata escura adentro. Em pouco tempo viram ser impossível manter as montarias. Abandonaram os cavalos e foi a pé que prosseguiram na façanha. Ao repararem que aquilo não iria dar em boa coisa e como não obtivessem sucesso em fazer o moço mudar de ideia, os puxa-sacos que, geralmente não costumam ser fieis, disseram ao príncipe que ficasse descansando enquanto iriam em frente, procurariam local onde ele pudesse melhor repousar.

Escafederam-se retornando a lugar seguro. Dizendo ao rei que haviam se perdido do príncipe foi que eles se apresentaram no palácio. O pai agora estava preocupado demais. Seu filho estava só e corria sério perigo. Ainda mais que buscava o cheiro do amor por caminhos errados. Na montanha não encontraria nada daquilo que procurava.

Formou um grupo com alguns de seus melhores homens e o enviou à floresta para resgatar o príncipe. Este só lá para a madrugada daquela noite fatídica da fuga, foi que caiu em conta de que terminara só. Haviam mexido com seus brios e iria em frente até o alto. Roupas rasgadas, extenuado, com fome e frio ele alcançou, após vários dias de esforços, o topo da montanha. O chão estava salpicado de lindas flores, mas nenhuma delas era detentora de algum cheiro. Somente tinham beleza, perfume que era bom não havia nenhum.

Frustrado demais, com medo de não encontrar a trilha de volta e, ainda por cima, apavorado com os esturros dos bichos selvagens , ele desistira enfim de encontrar o cheiro do amor. A dor e o abandono têm ganhos. Fazem com que se reflita sobre a existência e foi em meio a este pesado sofrimento que o príncipe começou a repensar sua vida.

Os pais, e o rei não havia sido diferente, ensinam letra e música das coisas boas aos filhos. Eles podem até se esquecer da letra, mas a música, de alguma maneira, permanece viva em seus ouvidos. Um dia, geralmente quando em dificuldades, aquela boa melodia volta a ressoar e então eles partem, céleres, em busca das palavras.

O aventureiro desastrado sentia-se por demais arrependido. O que mais almejava não era um bom banho quente e nem uma cama para dormir, mas abraçar os pais, lhes implorando por perdão pelo tanto de ofensas que lhes tinha feito e ao povo do reino.

Ao se ver assim algo estranho lhe aconteceu. O príncipe se sentiu leve e pacificado. As trilhas, ao contrário da ida nas quais pareciam imperceptíveis, tornavam-se evidentes e, mais ainda, agradáveis de se caminhar. Os lugares, antes praticamente intransponíveis, faziam-se convites a serem ultrapassados.

As feras amedrontadoras pareciam agora velar por seus passos. Os passarinhos cantavam mais alto e afinados. Era sentir sede e surgir o barulho de um regato. Vinha a fome e árvores desconhecidas abaixavam seus galhos a lhe oferecer exóticos e deliciosos frutos.

Não se sentia mais numa floresta, mas num jardim e sabem que era isto mesmo? Nosso amigo se dava conta de que estava diante de uma casinha bem simples e muito bem cuidada. A noite vinha chegando e um agradável aroma de comida lhe aguçou os sentidos. Depois de tanto tempo sem se alimentar de algo quente, pode-se imaginar a alegria dele ao ver que havia comida ali.

Bateu à porta e um homem sorridente a abriu. Apresentou-se como o príncipe. No início o dono da casa, sabedor da má fama dele se quedou apreensivo. Em seguida, ao notar que aquele jovem esfarrapado jamais poderia ser filho do rei, se acalmou. Deveras que estava diante de algum maluco perdido na floresta.

Quem possui o coração bondoso não deixa abandonadas as pessoas, ainda mais as que não tem muito juízo. Ele era assim e então convidou-o para que entrasse. Uma bela mulher lhe ofereceu um banco para que se assentasse. Reparando no quanto estava subnutrida aquela estranha visita, serviu-lhe, rápida, delicioso prato de sopa. O príncipe comeu com gosto. Repetiu três vezes.

- Agora vou lhe arrumar um banho, moço.

A dona da casa dizia assim recusando-se a chamar o jovem de príncipe. Até porque via que estava diante de uma boa criatura e o tal, do qual só ouvira falar, era considerado pelo povo como sendo pior do que o capeta. Tomado o banho e tendo vestido roupas simples do seu anfitrião, ele tomou de novo assento numa cadeira, agora mais perto da lareira.

Ao seu lado algumas crianças se acomodavam aos pés de um velho. Este lhes contava uma história. Seus olhos brilhavam como estrelinhas nas noites mais azuis. Estavam tão absortos no que ouviam que nem tinham percebido a chegada do tal doido, postado agora ali perto deles.

Ao prestar atenção no que ouvia, o príncipe deveras se assustou. Os netos embevecidos escutavam história versando sobre o cheiro do amor.

- Meu Deus, esta é a minha jornada!

Assustado demais com tamanha coincidência, ele se dava conta de que o velho relatava sua verdadeira história às crianças. Contava-lhes do quanto o príncipe de um reino distante, por possuir as narinas entupidas, tornara-se incapaz de perceber o cheiro do amor. Do tanto que ele buscara alcançar esse cheiro em lugares equivocados e de como só em casa, ao reparar melhor na atenção e cuidado do rei e da rainha para com ele, foi que enfim seu nariz reparou no delicioso perfume do amor.

Então o velho viu o choro copioso do moço. As crianças e os pais também miravam aquele estranho que lhes aparecera, tal qual um maluco e que estava aos prantos.

- Por que está chorando? A minha história é alegre e tem final feliz!

O avô, curioso, assim lhe perguntava.

- Eu choro, mas é de alegria. É que aqui nesta casa eu reencontrei o que saí a procurar pelo mundo. O cheiro que encontrei aqui, e que também existe no meu lar, é o cheiro do amor. Agora posso voltar ao castelo.

E foi assim que ele retornou. Seus pais o receberam de braços abertos e puderam sentir o quanto estava mudado. O príncipe estava pronto para ser o rei. Assumir o trono do seu lindo reino. Contaram-me as pessoas que viveram por lá, que ele foi um rei ainda mais bondoso e amado do que seu falecido pai.

Moral da história: Cuidar das pessoas sem reconhecer o cheiro do amor é impossível.


 
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 16/09/2013
Alterado em 22/03/2017
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