Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos

Era uma vez duas janelas. Viviam para embelezar a fachada de um casarão num lugar distante e em um tempo que de tão antigo, a gente fica até com preguiça de se lembrar dele.

Irmãs, nasceram das mãos de um talentoso carpinteiro morador das vizinhanças. Seu Juca, o pai, tinha um especial carinho pelas duas. Toda vez que passava diante delas diminuía os passos para admirar sua obra. E era para sentir orgulho mesmo, pois que eram lindas.

Só que seu Juca começou a reparar que uma das irmãs, batizada por ele como Ella, não estava bem. O olhar atento do carpinteiro via que, apesar de feitas da mesma madeira e pelas suas mãos caprichosas, iam se tornando diferentes. Enquanto Jane se tornava mais bela, a irmã pouco a pouco definhava.

Ventaninha, a janela amiga da encantadora casa em frente, ao reparar que Jane dormia, tomou coragem e perguntou, numa madrugada sem carros e muito menos gente na rua, o que se passava, se estava mesmo doente? Ao invés de responder Ella fechou a cara, o que quando se trata de janela significa que fechou com força a si mesma.  A voz suave de Ventaninha era incapaz de despertar a irmã dorminhoca, mas a batida forte que Ella se deu, fez um barulhão e Jane abriu os vidros assustada.

- Não foi nada não, Jane. Desejava conversar com sua mana sobre a aparência dela, cada vez mais descuidada, mas sua irmã não me deu papo.

- Estando assim lado a lado, não tem como vê-la, mas mesmo assim noto que a mana não está nada bem.

- Eu, que moro diante de vocês, posso constatar que cada dia que passa te deixa ainda mais bonita, ao mesmo tempo em que vai tornando sua irmã um pouquinho mais feia.

- Obrigada, amiga. Ella nem tem conversado comigo. Com quem gosta mesmo de falar é com uns tijolos meio estranhos e emburrados daqui da parede.

- É mesmo, Jane? E o que é que eles costumam conversar?

- Ah, minha amiga, você nem imagina o quanto me sinto desconfortável quando começa o bate-papo.


- Desconfortável? Mas por quê?

- É que o assunto é um só: Falar mal de tudo que ocorre em frente. Nada do que possa acontecer serve para alguma coisa. Não perdoam nada.

- Puxa que chato deve ser morar num lugar assim. Que bom que estou do outro lado da rua e assim não escuto essa lengalenga.

- Quando o dia amanhece com sol, elas estão desejando que chova. Já se está nublado, ou chovendo, choram a ausência do sol. Se a noite está quente, reclamam que o calor lhes faz mal. Acaso chegue o frio, esse também não presta, passam a ansiar pelo verão.

- Bem, mas pelo menos as reclamações se dão em relação à natureza. Eles pelo menos não falam mal das pessoas que passam por aqui.

- Seria uma maravilha se assim fosse. Com gente a ladainha é pior ainda. Não tem ninguém que salve. Das crianças reclamam serem barulhentas só querendo brincar. Dos adultos dizem que só andam apressados e sérios, parecendo preocupados e que assim ficam sem saber, eles que são tão curiosos, de onde vieram e para aonde estão indo. Já dos velhos é o contrário, criticam que andam devagar e assim demoram demais a passar em frente a eles, causando cansaço nas vistas.

- Acho tão gostoso participar desse movimento da nossa rua.
Foi o que do lado de lá Ventaninha falou.

- Eu também, mas eles não têm jeito. Imagine que até mesmo com os namorados implicam. Quando estão de mãos dadas rezingam que deveriam ficar abraçados, se abraçados, acham ruim, porque deviam estar de mãos dadas. Se vão conversando, queriam que estivessem calados, se passam em silêncio sentem raiva porque deviam estar falando. Pode haver alguém assim como a minha irmã e seus amigos fofoqueiros, os tijolos?

- Agora está fazendo sentido o que vejo em Ella, cada vez mais esquisita e feia. Ser assim, tão amarga, faz mal não só para a saúde dos vidros, ferros, parafusos e madeiras, mas também para o coração.

E Jane balançou a cabeça concordando que aquilo que Ventaninha lhe dizia fazia todo sentido.

- Tijolos ainda vá lá de serem assim emburrados porque ficam escondidos, só conseguindo ver a rua pelos buraquinhos do reboco despencado devido ao vento e chuva, mas uma janela que foi feita para mostrar a beleza do mundo a quem está dentro e o interior da casa para quem se põe do lado de fora, não cabe tal atitude.

Foi nessa hora que aconteceu um barulho estranho parecendo choro, grito e janela rangendo, tudo de uma vez. Era Ella que num solavanco imenso se abria, assustando as duas que conversavam bem baixinho. Acordou chorando e, ao contrário do que Jane e Ventaninha temiam, não estava agressiva. Ao contrário, das suas duas vidraças grossas lágrimas molhavam o peitoril e o chão do passeio.

- Mesmo estando fechada dei um jeito de escutar a conversa. Achei que fossem falar mal de mim e aí me abriria de uma vez para brigar.

- Por que a gente iria falar mal de você, Ella? Eu te acho tão linda e a janela do lado é simplesmente sua irmã gêmea.

- Pois é, mesmo vivendo tão pertinho de Jane acabei me afastando influenciada pelos tijolos, que iam me ensinando a só perceber o que de ruim há no mundo.

- A vida é feita de coisas boas e ruins. Vê-la por um lado apenas só nos mostrará um pedaço da realidade.

Era Ventaninha quem ponderava, fazendo com que Jane movesse afirmativamente as persianas.

- O pior é que não sei fazer diferente. Só sei criticar, ver o errado, o feio e o chato das pessoas, das coisas e da natureza.

- Aproxime-se de nós e iremos te ajudar a captar o outro lado, a ver também a face boa e bela da existência. Você tornará a ser aquela janela linda de antigamente.

Foi o que Jane, fazendo uma tentativa frustrada de se virar para olhar nos olhos da irmã, falou.

- Mas e os meus amigos tijolos? Eu não quero e nem posso abandoná-los. Não seria justo e a visão de mundo que eles possuem é mínima. Deixam que participem também dessas conversas?

- Estamos aqui escutando e bastante envergonhados. Puxa vida, pedimos desculpas por termos sido assim negativos a ponto de influenciar Ella.

- Sim, somos tijolos do bem e queremos aprender a ser melhores. Reparamos mesmo que a gente tem escorrido um pouquinho de lama cada vez que chove e isto não é nada bom para a saúde.

Aqueles que falavam com voz rouca eram dois tijolos influentes na parede. O dia estava quase nascendo quando Ventaninha e Jane assumiram com Ella e seus amigos o compromisso de os auxiliarem no desenvolvimento o que, em se tratando de janela e tijolo, significa conseguir ver, e mais do que isto, respeitar os dois lados da realidade.

- Não podemos somente criticar aquilo que não apreciamos e muito menos achar que não existam problemas. Saber tirar lições de tudo que acontecer diante dos nossos olhos é a sabedoria.

- Que bonita essa reflexão, Ventaninha. Vou completar dizendo que a percepção das duas faces da realidade fará com que a gente encontre um sentido maior para viver.

- Isto mesmo, Jane, a existência não é só se abrir e se fechar, ou carregar nos ombros o peso dos telhados. Somos muito maiores do que as funções que cumprimos diariamente.

Ao apontar por sobre a montanha o sol encontrou as três janelas e uma turma de tijolos ainda em meio a animada conversa. E todo dia continuou assim. Aliás, aqui me engano redondamente. Dia não, noite, pois que durante o dia janela e tijolo parecem mudos. Era o relógio da Igreja tocar as badaladas da meia noite para que o papo, sem ouvidos indiscretos por perto, começasse.

Ella e seus amigos tijolos foram aprendendo que na vida é preciso se respeitar os outros e que ninguém é exato aquele que a gente gostaria que fosse. Somos distintos e mais do que criticar é preciso cuidar para que as diferenças sejam respeitadas e valorizadas.

Hoje em dia tem gente que me diz que janelas e tijolos não sabem mais conversar quando chega a madrugada. Disto eu conto para vocês que duvido.


 
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 07/11/2016
Alterado em 22/03/2017
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