Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos


DOMINGO DE POESIA
 
Aquele foi um domingo de estranhezas. O bando de mulheres atentas demais, olhos vidrados e vez ou outra uma delas a se debater no chão em transe. Todas a levantar os braços cantando louvores e chorando, não sei bem se por conta do encontro com Jesus, pelos pecados cometidos, ou de tristeza e raiva pela falta da liberdade.

Nem uma hora tinha se passado daquela chegada constrangedora, do juramento realizado de que jamais voltaria ao inferno e ali estava igual cientista a observar ratinhos em seu laboratório. Trepado em cima do banco, Bíblia aberta na mão, o olhar de Otávio me buscava gerando incômodo. Para escapar fui andando em volta a reparar nas presas indiferentes à pregação. As que tinham visitas, quase sempre outras mulheres mais idosas e crianças a formarem pequenas rodas, algumas a falar bem alto e dando risadas. Outras cheias de discrição em cochichos. Isto sem contar umas tantas outras parecendo alheias ao burburinho em volta.

Você era uma dessas. A princípio vi suas costas. O vestido tomara que caia mostrava na pele as penas das pontas de imensas asas galgando as costas, como se almejassem ultrapassar os ombros eavançar por sobre a cabeça. Não apreciava tatuagens, mas na mulher anjo (dei-lhe este nome naquela hora) elas caíam maravilhosamente bem. Fingi ir até uma mãe que mais à frente amamentava o bebê, para conhecer seu rosto de anjo prisioneiro.   

Dava para reparar que não se tratava de uma mulher madura, tal qual aquela com quem conversava. Esperava alguém com o rosto duro, curtido pelas tantas dores e sofrimentos causados pela existência. Enganei-me. Encontrei uma jovem linda, dessas que parece haver permanecido na adolescência, mantendo toda beleza e frescor dos anos juvenis. Os cabelos mais para curtos e lisos, os olhos pretos de jabuticabas maduras e grandes, o nariz afilado com a ponta querendo apontar para o alto, magra, seios pequenos a pontuar o vestido e pés descalços.

Envergonho-me da pergunta idiota que lhes fiz: Por que não estavam no culto? Sua companheira foi direta:

- Não estou porque não acredito em Deus e muito menos nesses pastores que vêm aqui.

Ri, porque apesar de casada com o referido pastor, também carrego cá as minhas descrenças e sou sabedora do tamanho dos pés de barro dele. Você me abriu um sorriso. Ah, aquele sorriso está em mim até agora:

- Não participo porque gosto de conversar diretamente, dialogar, perguntar e escutar a resposta, questionar e ser questionada. Ali naquele meio só ouvem, só cantam e só escutam aquele pregador com voz de locutor de supermercado. Você também é do grupo da Igreja?

 Jamais iria mentir para aqueles olhos negros, imensos, a me mirar com tamanha delicadeza.

- É meu marido.

Foi o que respondi rindo ainda.

- Puxa, me desculpe, não quis ofendê-la falando assim do seu homem.

- Fique tranquila. A voz dele em público nunca me caiu bem e definição mais exata do que esta seria impossível. Consideremos que esse detalhe toma parte no quinhão da cumplicidade feminina.

Falei enquanto lhe piscava maliciosamente. Nós duas rimos e a conversa morreu ali. Que pena. Teria ficado dias a te olhar encantada, a saborear suas palavras, a beber do seu olhar. Nessa hora e nas outras nas quais me lembrei de você daí por diante, e foram infinitas, senti raiva e inveja da mulher que não acreditava em Deus e que não se mostrou nem um pouco receptiva a que eu participasse da conversa.  

A felicidade de Otávio por eu ter apreciado a visita ao presídio foi tremenda. Óbvio que imaginou que a minha vontade de retornar se devia à missão de prosélita, de arrebanhar mais ovelhas para o redil do Senhor. Tanto reparara que até me disse ter visto que fui até à mulher que aleitava e às duas que conversavam.

- Vi que trabalhava na missão de trazer mais gente para escutar a Palavra. O Senhor te recompensará com mil bençãos. Quem sabe domingo que vem você não obterá êxito?  Importa é semear. pela messe. Continue tentando.

Puxa, ele dizer continue tentando era tudo que eu precisava escutar naquela hora. Continue tentando significava se aproxime mais delas, traga-as à felicidade de pertencerem ao rebanho do Senhor.

A semana foi custosa de passar e apesar de todo o constrangimento da entrada, foi com satisfação que reparei, ao entrar no pátio de visitas, que a companheira da semana passada conversava com uma jovem tão parecida com ela que só poderia ser sua filha. Enquanto meu marido tinha uma fila de fiéis necessitadas, antes da pregação geral, de uma palavra individual, lá estava eu a te procurar. E a encontro lá em frente no último banco do pátio, livro aberto na mão e fumando. O coração acelerou e nem consegui pensar em algo mais inteligente para abrir a conversa. De novo, ao lhe perguntar que livro estava lendo, a sensação de ter sido boba me subiu pelo rosto.

Era um livro de poemas de uma autora da qual nunca havia ouvido falar: Ana Cristina Cesar. Ao notar a expressão de surpresa, na minha burrice eu era incapaz de imaginar que uma presa lesse poemas.

- Gosta também de poesia?

Aqueles olhos e o sorriso doce me perguntavam. A idiotice atacou novamente. Ah, você a me desconcertar desde aquele primeiro domingo e eu me sentia sem chão, perdida. Não tinha a menor noção do que responder. Não sabia dizer se gostava ou não. Falei então que fora alguns desses poemas que todos sabem e aqueles outros que na escola nos ensinaram, nunca havia lido nada de poesia. 

- Se quiser posso lhe emprestar este. Não hoje que poesia a gente precisa ir lendo bem devagar, saboreando cada palavra, cada verso. Mas semana que vem poderei mandá-lo pelo seu marido.

A malícia da minha piscadela foi ali por você devolvida.

- Prefiro apanhá-lo em mãos. Pode deixar que no próximo domingo estarei aqui com o locutor de supermercado.

E a nossa conversa foi sobre poesia. Você me leu alguns poemas da Ana Cristina. E ao final do horário de visita, ao sair do presídio eu me sentia como a criança feliz e cansada que, depois de muito tempo presa em casa, tivesse passado a tarde a correr e brincar no parque. 

Na volta para casa Otávio me indagou:

- O que houve com as ovelhas que está convertendo? Hoje reparei que ficou só com uma. A conversa está sendo promissora? 

Eu lhe disse que sim, que nosso papo havia sido ótimo, que tudo era promissor demais. E ele então completou dizendo que Deus agia em mim e nela e que assim estava explicado o ar de felicidade estampado em meu rosto.

E ele me perguntou se eu voltaria na semana que vem e nas seguintes. E tive medo de que o meu sim tão efusivo o tivesse feito desconfiar de algo.

- Que bom que virá; a partir de agora, além de casal, formamos uma dupla de apóstolos do Senhor, que obedientes ao seu mandato, caminham dois a dois a pregar o Evangelho. Que tal se você também quiser fazer uma parte da pregação? Mulher falando para mulher poderá ser bem mais produtivo.

- Não, isto não, não me sinto nada preparada. E acho mesmo que serei mais efetiva a pescar, uma a uma, para as redes das salvas pela misericórdia de Deus.

- Está bem, mas vá se preparando. Chegará o momento em que sentirá necessidade de pregar. Nesse dia em que o Espírito Santo lhe soprar tal desejo, verá a maravilha que é ter na boca, para as almas aflitas, a Palavra de Jesus.

No domingo seguinte apanhei o livro e você me pediu para lhe contar a minha vida. No meio do papo a pergunta que queimou como dardo de fogo:

- Gisele, você é feliz?

O silêncio que se fez e seu sorriso ao ver o quão desconcertada fiquei sem saber, mais uma vez, o que e o como responder. A sensação de panaca veio a galope.

Mais um domingo e era eu a pedir que me falassse da sua história e então soube que matara o marido. Depois de muito apanhar, após ser muito traída, violentada, desconsiderada na dignidade, para se defender de mais uma agressão, com a faca que estava sobre a pia lhe deu, só para machucar, uma estocada na coxa. Perfurou a artéria femural e lá partiu você, dirigindo qual uma louca, para salvar seu homem daquela hemorragia insana. Não deu tempo. Tentaram reanimá-lo, fizeram uma transfusão de emergência, mas ele estava morto.

Se aquela segunda semana custou a passar, imagine a terceira, a quarta, as demais. Dias parecendo o pequeno carro preso ao engarrafamento gigante na avenida. Aproveitava o tempo para ler poesia. Para saber mais daquela autora, para conhecer outros poetas, beber deles. Aprender a gostar e a desgostar de versos. Decorar alguns, aqueles mais bonitos. E por vários domingos o nosso assunto  foi só poesia. Eu a lhe presentear com novos livros e você a me passar daqueles que tinha guardados em sua cela.

O centro do universo não era mais a casa e muito menos a Igreja. Os cuidados com Ana Clara e com o lar relegados a um segundo e terceiro planos. As cobranças de Otávio entrando por um ouvido e saindo pelo outro. A vida se resumindo a me preparar para o encontro dominical e depois dele à relembrança da visita.

Até que num domingo, era dia dos pais, caí em conta de que não dava mais para negar os sentimentos. Eu que nunca me sentira atraída por mulher. Eu, casada com um pastor e que nem sabia que gostava de poesia, estava apaixonada.  

E Otávio, que a cada domingo, ia concluindo que de converter filhas para o Evangelho o meu entusiasmo passava bem longe, foi se tornando indiferente. Nem mais dos meus descuidados com Clarinha me reclamava. Claro, era ótimo que não se preocupasse comigo, pois assim tinha tempo para lhe escrever meus poemas de amor. Sim, você não sabe disto, e os guardo com carinho para você. Eles são seus. Não sei se verá qualidade literária neles, isto não me preocupa, mas com toda certeza encontrará neles o mais intenso e profundo amor que alguém possa conter.

Aquela tarde em que Otávio me proibiu de ir ao presídio foi o pior dia da minha vida. Lancei em sua cara aquilo que era óbvio. Que não ia por ele e muito menos por Jesus, mas por você. Ao invés de escutar seus xingamentos, comecei a elaborar astucioso plano da liberdade. Deixei que despejasse tudo, só me mantendo preparada para o caso de reagir caso fosse agredida fisicamente. Quando se fez silêncio a Sônia mulher tão cordata e boazinha foi se transformando, tornou-se irreconhecível  e, sarcástica, fingi mentindo descaradamente. Gritei que vivia realmente em pecado e que acolhia as ordens do meu esposo. Afinal ir até à cadeia nada mais era do que trair a sagrada aliança do matrimônio. Que era otimo que ele existia como cabeça do casal para me fazer pensar nesses meus terríveis pecados, para me levar à conversão e assim não queimar, infinita, nos fogos do inferno. Otávio me abraçou agradecendo e louvando a Deus num choro convulsivo.

Bem rápido caí em conta da  inutilidade de planos mirabolantes. Queria que todos soubessem que o tinha assassinado. De tanto ouvir nos cultos testemunhos de ex-assaltantes sabia das facilidades para se conseguir uma arma. Nem uma semana tinha se passado e havia trocado um par de brincos e uma pulseira de ouro pelo revólver. Aguardei que o pastor dormisse e quase encostando o cano, conforme relatavam, um pouco acima do ouvido esquerdo, disparei sujando-me com aquele sangue. No mais tudo já foi dito nesse comprido e chato julgamento.

Só não contava é que havia um lugar no qual as prisioneiras ficavam aguardando serem sentenciadas. Desconhecia que somente aquelas já condenadas é que residiam no seu presídio. E eu que achava que antes que enterrassem Otávio estaríamos juntas, tive que amargar tanto tempo distante de você, a mulher que me completa, que me leva para voar, que me faz feliz. Cumpri meu excessivo período de purgação, mas por que mais esta pena  se não cometi também este crime? Amar jamais pode ser passível de punição. A sentença que daqui a pouco receberei, e que os advogados me dizem ser pesada, se fará leve como aquela que, solta do corpo de algum passarinho, passeia ao sabor do vento. Ânsias para que o júri decida logo e eu seja levada, enfim, para os seus braços, seus abraços, bem junto aos olhos grandes e negros que me aprisionam até a alma. 
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 29/12/2016
Alterado em 03/01/2017
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