Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos

Pobre Moça

Apesar do nome de princesa, Diana era pobre de fazer dó. Vivia com a mãe nos fundos da mansão dos Conegundes Taveirão, a gente mais poderosa da cidade. Dulcineia engravidara de Diana mal havia entrado na adolescência. Dona Risoleta, mulher de coração caridoso, jamais que iria deixar que a menina grávida fosse largada ao Deus dará. “Em casa mando eu”. A matriarca encerrou assim a dura discussão com o marido que não aceitava os argumentos da esposa para que acolhessem a futura mãe.

Doutor Conegundes e dona Risoleta tinham três filhos. Um garoto e depois, nascidas à mesma época que Diana, mais duas meninas. As três garotas tinham sido criadas praticamente juntas. Isto até que chegou o tempo de frequentarem a escola. Aí se deu a grande separação. Enquanto as filhas partiram para estudar internas na França, Diana acabara de ser matriculada numa escola pública. Por mal dos pecados bem distante da residência onde vivia, eis que em bairro de gente chique não há necessidade de escola do governo.

Afora a saudade das amiguinhas a vida seguia sem maiores atropelos. Mudança mesmo aconteceu alguns anos depois. Ocorre que com a doença e morte da velha protetora, as regras da casa agora eram dadas por uma governanta suíça. O drama era que iam sendo modificadas para pior. Desse jeito Diana foi perdendo facilidades e a vida boa do passado na mansão. A orientação agora era para que fizesse jus à hospedagem e comida. Deveria ajudar a mãe nas tarefas de limpeza e cuidados com a casa. Nem bem havia completado os dezesseis anos e Diana teve que abandonar a escola para se tornar faxineira.

Depois de viverem alguns anos na Europa, chegara a hora das filhas do Dr Conegundes retornarem. Conhecedoras que eram das políticas extremamente machistas vigentes nas organizações dirigidas pelo pai, as irmãs, agora adultas, possuíam a consciência de que m seu interior não poderiam almejar trabalho que não fosse de secretária, ou algo ainda mais subalterno, tal como se tornarem meras auxiliares de escritório. Não eram bobas e lá no colégio interno já tinham tal situação dificultosa em vista. Foi por conta disto que, como convinha a boas moças, investiram na sagrada carreira do magistério, complementada em seu retorno por aqui no país. Bem formadas que eram, prestaram concurso público e - o destino costuma ser irônico - foram efetivadas como professoras na mesma escola onde estudara Diana.

As duas, que quando crianças eram tão amigas da menina pobre, haviam se transformado. Tinham se tornado mulheres pedantes, bastante diferentes das garotinhas simples com quem Diana tanto brincara no passado. E ela, que tanto ansiava pelo retorno das herdeiras se entristeceu muito. Presunçosas e metidas, não precisou nem de uma hora para que demonstrassem que não desejavam nenhuma reaproximação. Ao contrário, que aquilo que mais queriam é que fosse mantida boa distância, considerando o tanto de diferenças existentes entre as suas realidades.

Absurdo e irônico novamente era observar que ninguém ali era feliz. As três herdeiras, tendo que se misturar com o povo, dando aulas na escola de crianças pobres e a pobre Diana em sua lida diária cuidando da faxina do luxuoso casarão.

Houve um dia em que a copeira da casa, vítima de doença causada por picada de mosquitos, ficou presa na cama com febre alta e dores no corpo. Não se sabe bem se por coincidência, ou se por conta de alguma nova ironia do destino, nesta mesma noite estava programado um jantar especial na mansão. Jeff Pitombus, o múltiplo e renomado artista, em boa hora acabara de se tornar sócio em um novo empreendimento do doutor Conegundes Taveirão.

O mercado já de há muito andava desconfiado da solidez dos negócios da família, vários deles realizados de maneiras enviesadas sem que pudessem mesmo ver a luz do dia. Notícias na imprensa davam conta de que começavam a ser investigados pelo Ministério Público. Por outro lado, tal conjunção de interesses muito também interessava a Jeff, necessitado que estava em lavar seus altos ganhos não declarados às autoridades. Parceria boa para ambos e isto sem nem serem levadas em consideração as dúbias intenções do Dr. Conegundes: apresentar ao famoso artista as filhas solteiras

Na confusão causada pela falta da copeira, Diana terminou envolvida nos trabalhos de bastidores para o jantar e na substituição da empregada com dengue na importante tarefa de servir a mesa. Obviamente que diante dele, como toda mulher nesse país faria, tentando ser discreta, ela buscou lançar o olhar para o maior galã da atualidade. Da primeira vez foi ela quem o mirava, mas qual não foi a surpresa quando reparou que ele também a buscava com os olhos. Ruborizada baixou o rosto na esperança de que ninguém na casa tivesse observado a cena.

Fato é que Jeff se encantara. Além da linda moça nada ali naquela refeição lhe chamava a atenção. Mexeu os pauzinhos e não foi difícil descobrir que aquela que o havia servido tinha por nome Diana. Ansiava por demais vê-la em outra situação que não aquela durante o jantar. Ao atender a primeira ligação ela pensou se tratar de trote e quase que desligou o telefone na cara dele. Não sabia o que falar, gaguejou, disse coisas que não faziam sentido. Pensou mesmo que por conta de tanto despropósito ele jamais a procuraria novamente. Enganou-se redondamente. Na semana seguinte convidou-a para um jantar e isto teve que ser realizado no apartamento dele eis que, famoso tal qual era, em lugar público não teriam sossego com os paparazzi e muito menos com fãs a pedir autógrafos e fotografias.

Uns dias mais à frente estava agendado um grande show de Jeff e sua banda por lá e ele então garantiu para Diana fazer questão da sua presença para prestigiá-lo. “Que iria cantar só para ela, como se mais ninguém se fizesse presente para assisti-lo”. Ao escutar tais coisas Diana se viu nas nuvens. Não cabia em si de felicidade, sentiu mesmo umas vontades de se beliscar de vez em quando, para se certificar de que aquilo era real, de que não estava sonhando. O dia tinha chegado e as irmãs, que por nada perderiam o show de Jeff saíam de casa, não sem deixar de reparar na luxuosa BMW estacionada em frente à porta de serviços. Como foram antes de Diana, deixaram de ver que o motorista de Jeff estava lá para levá-la.

Não fosse pelos sapatos que tomara emprestados, a noite estaria mais que perfeita. E nessa hora lá estava a ironia mais uma vez a dar as cartas: quem os cedera (tendo-os adquirido, num brechó) foi aquela mesma moça causadora de tudo, a tal doente faltosa. O problema é que eram de um número menor que o seu. Desacostumada até então a esse tipo de calçado de festa, ainda mais assim tão apertado, os pés delicados de Diana logo se feriram. Aproveitando-se do vestido longo, discretamente, os largou de lado.

Ao chegarem à mesa foi que uma das irmãs notou o quão semelhante à Diana era aquela moça sozinha e para quem todos se viravam, no camarote principal à frente. Impossível que se tratasse da empregada, a outra disse. Mesmo assim mantinham os olhares perscrutadores naquela direção até que uns minutos após não havia dúvida alguma de quem era que estava lá adiante. Seus olhares crispados, carregados de inveja, denunciavam. No lugar de maior honra da noite se postava, descalça e tão bela, a mais simples serviçal da casa. Diana brilhava.

ESCRITO VISANDO PARTICIPAÇÃO NA OFICINA DE CONTOS - CICLO 9: RELEITURA DE UM CONTO DE FADAS │ VLOG DO ESCRITOR
https://www.youtube.com/watch?v=XjG-jVAgE30
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 15/02/2017
Alterado em 27/02/2017
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