Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos


Senhor Bispo,
Tentando arrumar os papeis nos armários da Paróquia, encontrei um envelope que nunca tinha sido aberto. Pelo carimbo dos Correios percebi que quando de sua chegada o destinatário já havia falecido. Trata-se do relato de fato incrível acontecido na região. Lugar incerto acima de Marabá. Veja que o autor revela algo inusitado. Uma peste a extinguir um povoado inteiro e as provas do ocorrido. Trata-se de fruto de uma mente esquizofrênica? Terá sido real? Não sei responder e envio tudo ao senhor para que possa discernir melhor sobre o seu conteúdo.
Pedindo a sua bênção, me despeço.
Pe. Cristovam Craveiro Tolomeida.

 
Não dava para se perder: nuvens de urubus sobrevoavam o arraial. Foram os cachorros que me receberam. Mais do que para me amedrontar, ou proteger as pessoas e propriedades, a expressão que tinham era de felicidade: O que será que veio fazer o forasteiro, que nos estará trazendo?   
 
Meu tempo era mínimo, tinha que ser ágil. Fazia um calor infernal e o cheiro era repugnante. Não vim pela trilha serpenteante ao lado do riacho. Aproximei-me pela encosta perigosa e escarpada do morro e na maior parte do tempo a floresta me protegia.  Dei-me conta de que o muro que entrevia mais adiante era o do cemitério. Um tanto de defuntos tinham sido largados por ali.   
 
Entrei no povoado pelos fundos da Igreja, estava tomada pela morte. O estado da decomposição dos corpos mostrava que teriam sido os da segunda leva, pois que os primeiros teriam sido enterrados. A maioria se encontrava mais arrumada, sinal de que restava a esperança e os cuidados no se lidar com os defuntos ainda eram mantidos.   
 
Meu Deus, aquilo era muito pior do que os piores pensamentos sobre a peste teriam sido capazes de imaginar. Caminhava pela rua principal. Peguei-me mesmo com certo cuidado em não me aproximar mais de um lado e nem do outro. Depois de ter, com tanta coragem, feito infindáveis esforços para chegar, tomara conta de mim o medo. Despachei-o em prol da ciência.
 
Ouvidos atentos ao silêncio. Corpos dilacerados explicavam o fato de os cachorros estarem saudáveis. Mais que comida, disputada com urubus, eram desejosos do meu carinho. A caminhada ganhara mais um participante: um gato preto aderiu à procissão. Havia respeito àquela multidão de mortos. Não mais latiam, nem faziam festa.
 
Lutava para não abandonar a tão tênue esperança do encontro da vida. Visitava as casas e dentro delas o mesmo cenário. Difícil encontrar cama na qual não repousasse alguém. Conformados com a desgraça, chegados os sintomas, eles se deitavam na espera da rainha das noites escuras.
 
O séquito prosseguia quando a cachorrada, espantando uns urubus, correu para uma casinha à frente. Só o gato permaneceu comigo. A impressão de ter escutado um pigarrear. A peste me provocando alucinações pensei. O susto foi tremendo ao entrar. Uma velha, que de tão marcada pelo tempo a idade se tornara incógnita, sentada num banco, me olhava espantada.   
 
- Moço, o que o senhor veio fazer no salão de baile do demônio? Por acaso é algum louco? Chegado aqui não existe estrada para o retorno. Já ouviu falar de alguém haver voltado do inferno? Está condenado como todos nós e seus colegas que aqui chegaram.  
 
Respondi que era médico, cientista especializado em doenças tropicais, pesquisador num Instituto que estudava a peste. Viera, ao contrário do que todos pensavam não existir, em busca de encontrar gente viva. Precisávamos de pistas para lidar com doença tão terrível. Ela sentia não poder me ajudar. Não fazia a menor ideia de como aquilo tinha vindo e dos porquês de não ter sido contaminada.
 
- Os derradeiros diziam que era agraciada por Deus, a única sem adoecer. Penso o contrário, acho mesmo é que fui esquecida por ele.
 
O que ela me indagou foi se trouxera pilhas, pois que seu radinho se encontrava fraco e as casas nas quais poderia encontrar alguma tinham se acabado. Doeu-me quando me disse que o que mais a intrigava era que nunca ouvira notícias da peste nos noticiários.   
 
Ciente da sua incapacidade em lidar com a doença, o governo decidira isolar o lugarejo. A população não podia saber de nada. Isto provocaria muito temor e poderia mesmo desestabilizar o regime. No raciocínio dos governantes o melhor a ser feito seria deixar que todos se findassem. Afinal tratavam-se somente de uns duzentos moradores, uns catrumanos afastados do progresso.
 
O Brasil ganhara a Copa do Mundo no México, o país vibrava em êxtase. Melhor momento do que aquele não apareceria em anos. A descoberta, com certeza já havida, de que eu furara o bloqueio apressaria o bombardeio, agora como forma também de me punir. A solução final em marcha: não deixar sobreviventes. A qualquer momento poderiam chegar os aviões carregados com napalm. Queimar tudo e assim desaparecer com qualquer indício da desgraça. O Brasil nunca tivera a peste.  
 
Precisava sair de lá, buscar aliados fora, esconder a sobrevivente. Falar com a velha daqueles planos absurdos era bobagem. Ela nunca entenderia aquilo. Continuava esperando a ajuda das autoridades para, pelo menos, propiciar aos mortos um enterro digno.
 
Convencê-la de que a sua sobrevivência iria ajudar demais na elucidação da epidemia, seria mais producente. Consegui demovê-la a deixar por um tempo seus mortos, com a promessa de que a presença dela lá fora agilizaria o derradeiro socorro.
 
Foi providencial que a cachorrada optou por não nos acompanhar. Preferiram permanecer em meio àquele festim macabro. Tomamos o caminho de volta. Caminhamos bastante, a velha era dona de resistência incrível. Seguíamos nos escondendo pelas escarpas do cânion quando vieram os tiros. Ela caiu ao meu lado. Entrei na mata dando meia volta. Não me buscariam em meio à peste.
 
 Encontrei uma caverna e logo chegaram os aviões. O cheiro do napalm me ardia as narinas, calor aumentara demais. A floresta em belas chamas laranja. Permaneci junto aos morcegos debaixo da terra e pedras. A noite de chuva foi providencial. A tormenta enchera o riacho e, mesmo sabendo que as chances de morrer afogado eram altíssimas, decidi descer pelas águas bravias. Um tronco imenso e sua galhada passava e pulei a tempo de agarrá-lo. Era proteção contra as rochas, ajudando também a que me mantivesse na superfície. Naveguei até pela manhã, quando fui reparando que aquele riacho da enchente tornara-se rio. Larguei o tronco e nadei para a margem. Estávamos no Parauapebas.   
 
Terminara o primeiro pesadelo, começava o segundo. Fugi do Brasil com o apoio de um religioso. Agora seguro alertaria o mundo quanto à peste, denunciando também o absurdo do abandono do arraial à própria sorte. No início até me escutaram, indignavam-se. Aos poucos fui reparando que iam mudando as expressões. A máquina de propaganda era competente e o fato de ter sido diagnosticado, na adolescência, como jovem problema, viciado em drogas e depois mesmo como portador de esquizofrenia, vinham ao encontro do discurso oficial de que inventara tudo.
 
Estava louco mesmo? Internaram-me na França e minha família solicitou que me devolvessem. Aqui no avião, receoso de que breve irão lobotomizar-me, redigi este relato. No aeroporto o entregarei para que papai o envie ao padre que me auxiliou. Bem poderá ser que ele, com o apoio da Igreja, consiga enfim quebrar a parede da indiferença em relação aos fatos. À minha história tão real. 

Conto elaborado para a Oficina Virtual de Leitura. Ciclo Décimo - Locais desconhecidos. 
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 05/03/2017
Alterado em 25/03/2017
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