Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos


FURACÃO
A tempestade se aproxima e nada pode ser deixado à beira mar. Lidero o trabalho duro me esforçando para animar a turma, mas o resultado é pouco. Logo eu que imaginava um final de vida sem trabalho, sem ter que ficar dando ordens, sem me aporrinhar com empregados tais esses indianos preguiçosos, sem parecer ter me tornado simples ajudante, sem me comunicar nessa mistura de inglês, francês e holandês... sofrendo nessa batalha na praia. O sonho de uma vida “sem” se foi para distante.

O que vem de longe é o violento furacão. Chega para me dar, como se o que tenho fosse pouco, mais serviço. Ânsias de largar o aluguel de equipamentos para vela e windsurfe. Arrependimento de haver arrumado este negócio. Logo eu que não tenho o dinheiro como necessidade, aqui nessa suadeira. A intenção é ótima. Possuir trabalho é antídoto para olhares indiscretos. E gente bisbilhoteira é igual burrice brota em qualquer lugar.

Tirando o defeito de me dar serviço, o bicho, além da beleza, traz também mais vantagens. Fez com que o grupo de políticos do interior, acompanhado de uma mulherada jovem e bonita, partisse mais cedo. O risco só não foi zerado devido ao casal em lua de mel. Mas desses paulistas me safo facilmente. Além de permanecerem por largos períodos no hotel, ao sair só têm olhos um para o outro.

Inocência de ter imaginado haver descoberto o paraíso. Brasucas endinheirados chegaram praticamente juntos. A primeira vez que ouvi português não deviam ter se passado cem dias da compra da loja. Do escritório escutei: “papai, você vai alugar mesmo?” Ajustei as câmeras e lá estava a família. Reconheci o diretor de um banco que fez negócios conosco. Naqueles tempos não me recordo de haver conversado diretamente com ele, mas sem dúvidas que esteve em reuniões comigo.  

Naquele primeiro verão viraram formigas no mel. Eram tantos que me senti inseguro. Defini que não iria permanecer aqui de bobeira. Dei logo a desculpa de que precisava comprar coisas e conversar com o meu gerente de banco em Port Louis. De repente, a maravilha escondida de La Cuvette tinha se tornado insegura. Aos poucos e com o meu silêncio, recuperei a estabilidade. Os patrícios se divertem e eu preencho meus dias, incógnito, cuidando deles.    
 
Mesmo com as plásticas, melhor não oferecer, assim de bandeja, chances ao azar. Para todos os efeitos sou um argentino excêntrico e com excelentes reservas financeiras. Um gringo que perdeu mulher e único filho num acidente aéreo. Para curar a tristeza e refazer a vida veio para as Ilhas Maurício. Plástica muda o rosto, mas a voz, mesmo que se trate de elogiável espanhol, permanece a mesma, como apregoava a propaganda chata dos tempos de Brasil. Perto de conterrâneos e argentinos me calo. Divirto-me a descobrir as origens pelo sotaque: mineiros, gaúchos, paulistas, cariocas, baianos, paraenses, pernambucanos... Virei especialista nisso.
 
Gosto da tempestade – resumo a vida nessa palavra – e acaso vivesse só subiria o morro para degustar sua chegada. A estupenda transformação do cenário, as estranhas combinações de cores, o chumbo que vem pesando parecendo espremer o oceano. A tormenta avassalante se apossando de tudo, embrulhando o mar, envolvendo a ilha, ocultando o céu e apavorando as gentes. A natureza abraçando a vida num espetáculo tão bonito quanto assustador.

O problema é Marie. O tamanho do medo que sente me impede o afastamento. E ela, apavorada, jamais que me deixaria despertar Felipe para levá-lo comigo no jipe. Gargalhar, gritar forte com ele imprecações contra o furacão. Deixar a adrenalina subir ao máximo, esquecer do medo no saborear do monumental espetáculo.

Recordo-me do dia em que soube da gravidez. Raiva de Marie por ter deixado que acontecesse. A exigência do aborto e a mentira uns dias depois me dizendo haver se livrado do bebê. O ódio quando descobri ter sido conversa fiada, ao contrário, o dinheiro lhe servira para comprar o enxoval. Descontrolei-me e ganhou umas porradas.

Voltou para a casa da mãe. Três meses depois a vi, linda, caminhando na areia. A barriga que tanto escondera brilhava ao sol. Esforcei-me, inutilmente, para manter viva a raiva. Trouxe-a e passadas umas semanas Felipe nasceu.    

Bebê que fui aprendendo a amar até que, de repente, caí em conta de que nunca gostara tanto de alguém. Criança que após chegar transformou minha existência. Garoto com a capacidade de me fazer sorrir à toa, trazendo-me de volta a juventude. Menino a me mostrar o mundo através de novas janelas, distintas perspectivas, sempre mais interessantes e bonitas.  Felipe que de tanto amar até me faz doer o corpo.  

Marie me olha com expressão de medo e reprovação, por não fechar as persianas de madeira da janela do quarto. É simples, se não vou ao furacão, que ele venha até mim. Aguardo o espetáculo daqui de trás do vidro. Explico que as vidraças são reforçadas, à prova de tormentas.  Balança a cabeça argumentando não se tratar de simples tempestade, mas do poderoso furacão da temporada.

Enfim ele surge. As palmeiras lhe prestam reverência: ajoelham-se. O vento urra e objetos de variadas formas e tamanhos passam voando: a mulher de biquíni na propaganda de cerveja, uma placa de aviso mar perigoso, folhas de compensado da barraca elevada dos salva-vidas e telhas de zinco, amianto e outros materiais que, na velocidade em que viajam não identifico. Certamente partes de barracas da praia. Em breve veremos se a minha, das maiores e que me afiançaram ser sólida, permanece de pé. 
 
A luz se apaga, estamos à mercê do monstro. A última vez que experimentei uma escuridão assim era viajante de um pequeno porta-malas. Os contratados para me exportarem argumentavam ser um carro simples o meio de transporte ideal para a arriscada operação. Automóvel de luxo é chamariz de polícia. Enlatado por cinco horas em posição fetal. Além do medo tinha o fedor de peixe. Carro de pescador de final de semana que, para minha desgraça, curtira seu passatempo antes de me conduzir. Aplicaram-me um sossega leão que garantiam me apagaria antes que entrássemos na estrada. Só podem ter errado a medicação e a agitação só aumentou.

No Paraguai esconderam-me naquilo que diziam ser um hospital. Lá iria passar pelas cirurgias plásticas. Ao final de cada uma encaminhavam-me para os cuidados de Iolanda, enfermeira idosa e boa de copo, em um sítio nos arredores de Assunção. A garantia que me davam era a de que finda a terceira operação, nem mais a minha mãe me reconheceria. Também, com aquela baba que me cobravam queriam o quê?  

A arte foi tão bem feita que passei a evitar espelhos. Incômodo de observar que do outro lado me mira alguém diferente. Levaram-me para Buenos Aires, onde ganhei o passaporte argentino com tudo novo, foto, nome e dados que tive que decorar.

Embarcamos para a África do Sul meu derradeiro passo rumo à vida nova. Ironia foi a escala em São Paulo. Os putos a me fazerem viver situações temerárias. O chefe dos sacanas, um cara que nem imagino de qual nacionalidade seja, a me sussurrar: “calma, está tudo sob controle”. O pacote terminava com a minha entrega na segurança de Cape Town, como se lá fosse lugar seguro. Enquanto isto a horda de patrícios havia invadido a aeronave. Sorte é que já me acostumara a permanecer de bico fechado.  
 
O negócio era perfeito. Fabricar pílulas de variados formatos, tendo como ingredientes básicos farinha e açúcar, umas brancas, outras coloridas. A gráfica Magalhães, do meu sócio, confeccionava bulas e caixinhas idênticas às dos remédios caros que comercializávamos. Distribuí-los por farmácias de gente que adora levar vantagem constituía-se na fase mais simples no processo. Cuidado a ser tomado era só o de se evitar grandes cidades.

Que de vez em quando a consciência por colocar no mercado gato por lebre me tenha pesado é fato. Paciência que os doentes colocassem neles a esperança. Nessas horas é melhor o pragmatismo: fazer o quê? Não fosse o meu esquema, outro teria surgido. O mercado está aí e sempre ávido de soluções baratas.  
 
Constatei a dimensão da coisa quando as exportações atingiram um milhão de dólares a cada quarenta dias. Nossos produtos eram sucesso não só nas América do Sul e Central, mas também em praticamente toda a África. O objetivo não era mais fazer dinheiro, mas descobrir formas seguras para lavá-lo. Estava rico e passei a viver na Espanha. Uma semana por mês no Brasil tornara-se suficiente. Magalha ficou e cuidava muito bem da operação.

Mulher traída é pior do que doença. Joana, pelo menos sob a ótica da época, fez a desgraça.  Mesmo com os cuidados para não colocá-la a par dos negócios, a piranha percebia a grana fluir excessivamente. No barco em Angra tratei de negócios urgentes com meu sócio achando que ela dormisse. Registrou aquilo e fez entornar o caldo ao reparar, uns meses depois, estar sendo preterida. A bruxa deu com as línguas nos dentes.

Não houvesse acontecido, será que era tudo tão bem feito para não ser jamais descoberto? Hoje digo que não, fossem só eu e o parceiro, mas havia o bando de corruptos distribuidores e os donos das farmácias. Aí estavam os elos fracos da corrente. A sacana só me adiantou as coisas.

A Polícia Federal entrou quando eu me preparava para voltar a Madrid. Escapei, mas Magalha não teve a mesma sorte. A babaca, estrilou e perdeu a boca rica, bem feito. A justiça tomou tudo: casa, apartamentos, fazenda, sítio, iate... Das contas bancárias cuidei eu e só levaram o que guardava no país.   

E agora essa, a vida a se superar em seu sarcasmo. Felipe adoece e o diagnóstico despenca em minha cabeça deixando-me zonzo, abestalhado. Meu filho praticamente desenganado e o medicamento que toma, a única esperança, foi um dos nossos maiores sucessos de venda. O furacão ruge enquanto passa ainda mais forte. 


Conto elaborado para o desafio dos Contorcionistas tendo como tema: Corrupção 
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 28/03/2017
Alterado em 28/03/2017
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