Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos


MACUÃ

Pássaro que canta no escuro,
faz a gente se arrepiar.
Não mexa no futuro,
deixa a sorte me beijar.
Versos tristes de uma cantiga

Pousada no galho oculto da gameleira a macuã piava enquanto eu nascia. Desespero de mamãe em meio ao horror daquela ave, numa noite que era para ser só de alegria. Eu fazia coro, me disse: “Ela cantando de lá e você respostava chorando de cá”. Implorava que não espantassem o pássaro, receosa de que expulsão assim causasse tragédia pior. Carecia era de se acender velas por modo de criar proteção. Sem nem saber de nada eu acabara de entrar na batalha de Deus com o Diabo. Aquela cantoria agourenta do Demônio me solicitava para o rol dele. Garantia que mamãe dava era a de que eu não sobreviveria ao cair do umbigo. Agosto chegando e terei cumpridos 94 anos.

Vivi de tudo, atravessei inúmeras tempestades, estive no quase-quase do despencar de precipícios. Sofri doenças matadoras de doutor afiançar: “esse não escapa”. Levei coice de mula, comi mandioca brava, perdi o dedão apodrecido por picada de cobra. Das febres nem aprecio fazer recordação. Até um raio cismou de me atacar. Foi quando busquei guarida, com meu cavalo e 12 vacas, debaixo de um ingazeiro. A árvore numa boniteza de se finar ardendo em meio àquela tormenta de fim de mundo. Cavalo e gado jaziam. Zonzo, surdo e empapado de tanta água eu permanecia vivo.

De tiros? Desses meu corpo engoliu 7. Dos que passaram rente nem imagino quantidade. Mire essa marca na palma da mão. Pois a assassina entrou bem aqui no vale do meio do M sem conseguir - que ela ambicionava – cortar linha de vida. Largou-me esse ponto que mais parece furo do cravo de Nosso Senhor.

Foi minha mãe que lá dos altos me protegeu de tantos perigos? Povaréu diz ter sido a outra, a Aparecida, quem costurou os milagres. Pelo sim, pelo não aceito o seguro das 2 bandas. Ou há uma terceira que nem ouso nomear qual seja? Faço bem? Tiro a roupa e lhe mostro as cicatrizes? Está bem, não carece. Senhora acredita em minhas palavras.

Diz o povo por conta daquele canto – a doutora sabe - que tenho corpo fechado. Que possuo tretas com o Encardido. Sugerem mesmo que eu seja pactário. Toleima. Senhora ri. Acredita nisso? A gente desse interior aumenta muito. O que tive mesmo foram as sortes? Umas imensas chegando até às beiras do sertão? Fortunas daquelas de quem ganha mais de uma vez o primeiro prêmio das loterias. E será que sertão tem margens, ou ele persiste de existir em qualquer rincão? Para aumento de segurança deixava pagas umas missas na Santa Rita, igreja grande de caber os fiéis e parecer vazia. Seu Zarcanjo do Córrego da Pedra Preta, passado de Século e fama de santo, também me levava uns cobres para rezar terços nas intenções de eu ser feliz.

Ainda era menino quando levei uma carreira de cachorro. Chegou a me riscar a canela. Esconjurei o bicho gritando: “que morra, diacho”. Poucos dias depois ele foi caindo na tristeza e perdeu as fomes resolvendo morrer assim, de mansinho. Aí o povo reforçou nas ideias de que comigo, protegido da macuã, não se devia bulir. Uma professora entendida nos espiritismos queria que eu frequentasse o Centro. Via que eu era quase médium, só carecendo de um pouco de desenvolvimento. Estive umas vezes, mas não criei prazer.

Mamãe tinha gosto em jogar no bicho e era eu quem dizia dos sonhos, das gentes que apareceram. Possuía sabedoria de transformar tudo em animal e desses, num zap, gerava números. Quando deslembrava eu dava de inventar. Não fizesse assim e não me dava sossego. Acertou alguma vez? Pois afianço que passamos no zum do ouvido um tanto de vezes, mas ganhar mesmo, nada.

Pergunta-me se sinto algo retornando aqui já tão idoso? Sentir nenhum afianço à senhora. Daquelas dívidas permaneceu alguma? Pois paguei todas com altos juros. A doutora sabe que fui o condenado com o maior número de anos na cacunda? Hoje deve haver bandido com bem mais tempo a cumprir do que eu, mas naquela época fui facínora rei, me nomeavam. As penas somadas o resultado que dava, o advogado fez contas, era 587. Mais do que a vida do país. Até entrevista em jornal concedi. Conversa com repórter foi publicada com retrato em dia de domingo, que é quando mais gente lê jornal. Inclusive nos estrangeiros meu nome era citado. Mamãe aqui comigo e teria apostado demais nessa cifra. Estivesse viva quando desandei teria sentido vergonhas de mim? Ou teria se conformado, pois que eu era o predestinado filhote da macuã? O que diria, acho, é que destino de vivente não se muda e que o meu fora definido no exato canto daquele pássaro feio. Já contei que mamãe descansou quando eu só tinha 16 anos?

Estava ausente quando ela partiu. Teve umas febres de dar delírios e deixar molhada a cama. A gente residia nos grotões. Umas 15 léguas depois da Serra Quebrada. Lugar esquecido e de recursos quase nenhuns. A benzedeira que segurava a mão dela me contou que mamãe parecia querer deixar um recado. Só que se findou antes. Sou filho único, não sabe? Acho que conhece tudo de mim, não é? Leu minhas façanhas nos processos. Afamei, mas isto foi há bem mais de 50 anos. Doutora nem sonhava em nascer quando daquelas eras.

O que espero da existência? Pois lhe digo que coisa alguma. Não tenho quem goste. Nunca houve uma que eu dissesse: essa é minha. Mulher que tive foi mamãe. Outras foram para as alegrias em lençóis, que homem anseia por essas necessidades. Tempo da velhice é para se fazer balanço na espera da morte. É virar para trás e passear pelo que se fez e o que se deixou de cumprir.

As orações de mamãe eram fortes. Quando viva meu rio não avançou por cima dos barrancos inundando várzeas. Manteve-se calmo, escorria sem corredeiras, limpo e cristalino. Mamãe se foi e as águas engrossaram se tornando turvas. Reparei esse mudar de estações quando senti que aquilo que mais apreciava era escutar histórias de assassinatos, ouvir de gente maldando de bicho, ou de humano mesmo. Escolher alguém e ficar imaginando como seria sua morte: faca, ou tiro e de que jeito estaria num caixão?

Daí a fazer rancho com chusmas treteiras foi só um tempo. Gambá cheira gambá, dizem. Senhora sabe que juventude aprecia demonstrar coragem. Um chegou dizendo que seu vizinho desconfiava de traição por um fulano de outra cidade. Que ganhava uma égua bonita e trotadora quem desse fim no gajo que se engraçara com a patroa dele. Topei e fui. O dono da encomenda me passou descrições e endereço. Tocaiei. Lua ponta de unha, rua vazia e o cujo que possuía cara de fuinha - homem assim não há jeito de que preste - saiu de casa. Entreguei o tiro, de pertinho, na nuca. Ele rodopiou caindo virado para mim. Olhos esbugalhados brilhavam naquele quase não haver luz. Brotou medo e, por segurança, taquei a segunda bala no coração. Garantida de novo a coragem, com a faca de descascar laranja, cortei a orelha direita dele que era para testemunho.

Fui ao encontro do desconfiado de ser corno trocar orelha por égua. Ele se adiantou e antes que falasse algo foi me dizendo que não era nada daquilo. Que as referências estavam erradas. Que o merecedor da morte vivia em outras bandas e tal e coisa e coisa e tal. Já viu gente retornar do outro lado? Que largasse de lero-lero. Entreguei a orelha e exigi a bichona que de boa montaria andava precisado. Sugeri que cuidaria do outro também, do verdadeiro. Ele, meio aparvalhado nos remorsos, nem me escutou. Deixei-o lá segurando a orelha do fuinha na mão.

Que o meu batismo se deu num engano a dona sabia? É que jamais assuntei isto. Tema que me dava umas gasturas. Ver os olhos do morto a me vigiar me criou cismas e ao mesmo tempo um prazer. Sou doido? Tomei gosto de imaginar o que será que se passava no entendimento do moribundo no vrumvrum do chegar da velha da foice. Pensaria em mim, ou na vida que acabava de perder? Essa mania fez com que nunca mais atirasse pelas costas. Para não deixar escondida a coragem, passava antes numa Igreja por costume de beijar os pés de alguma imagem de santo. Cumpria assim mesmo correndo riscos de que a macuã se desgostasse desse proceder? Responder o quê? O que sei é que por nada desse mundo queria perder os olhos do quase morto a me mirar.

Quantos foram os que deitei? Nunca fui bom de contas. De letras, vírgulas e palavras sou bem melhor. Carece mesmo de saber número? Isso se pode pesquisar nos processos. A doutora tem razão, uns tantos não constaram nos registros. Nos andares de qualquer trilha, mesmo dessas que os da cidade nem são capazes de perceber, seguindo em frente, se encontrará viventes. O sertão formiga de ter gente demais. Uns de menos, será que fizeram faltas?

E os que não mereciam morrer pelas minhas mãos? A começar daquele primeiro, que nem nunca soube o nome, creio ter havido outros tantos. Mas quem sou eu para julgar merecimento de um ou de outro? E se o fuinha tiver sido perverso? Um ser muito pior do que aquele outro que andava com a mulher do dono da égua? Cara de fuinha, senhora sabe... Têm uns trens que me confundem.

Pois que sim, na vida tive de tudo, até descansei gente sem receber nada em troca. Uma vez, pras bandas do Curral das Vacas Mansas, encontrei um desgraçado tão feio que até foi nascendo em mim uma dó dele. Remoía como deveria ser tristonha a vida de alguém assim tão afastado, de algum restinho que fosse, da boniteza. Então me visitou a ideia de livrá-lo daquela cara horrenda. Antes de atirar dei aviso de que o cumprimento se dava só por caridade. O homem tremeu tanto, se sujou todo. Acho que esse uns muitos tempos depois de finado ainda dava uns arrepios.

Minha conversa assusta a doutora? Definitivo que não sou pessoa má. Sou gente das boas. Estudei muitas letras. Tirei mais de um diploma na cadeia. Dos livros criei bastante amizade. Li todos os encontrados na prisão. Quantidades na biblioteca.

A senhora tem conhecimento de que meu sustento se deu foi com esse ganha pão? Nunca roubei ninguém. Em bolsos e alforjes dos meus mortos jamais mexi. Diferença se dá é na profissão de uns e de outros. A doutora tem a sua e eu tive a minha. Apreciam a que exerce e desgostam do que faço? Paciência então. Tudo assim e assado, bem simples, eu penso.

Por que matei de novo já tendo mais de noventa anos? Ah, explico. Senhora não imagina a aflição que me rompia o peito, ao reparar nos companheiros de asilo sem dar conta de se cuidarem. O que fiz foi auxílio. Doutora pensa mesmo que aquilo era vida? Comecei pelos que se alimentavam por sonda e viviam quase dormindo. Depois aliviei os que usavam fraldas. Terminei com os que recebiam comida na boca. Em madrugadas silenciosas jogava o corpo para frente, que não sou mais possuidor de forças, apertando o rosto com o travesseiro. Largava de vez em quando para ver os olhos. Gosto demais, senhora sabe os porquês. Será que é a macuã em mim? Quer saber quantos? Havia uns trinta quando iniciei. Hoje tem uma quantidade de camas vazias.

Estivesse viva queria conversar com aquela mulher, a professora. A dos tempos da minha meninice e que era chefe no Centro Espírita. Será que a macuã se apossou mesmo de mim? E se for verdade ela ainda está viva aqui no peito. Senhora vai me soltar no mundo? Será que deve?

Este conto tirou o quinto lugar no concurso do Entrecontos.com tendo por tema o folclore. 
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 07/04/2017
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