Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos

A FILA
Busquei quem consideram o melhor de todos para o segundo diagnóstico. Contei-lhe da desconfiança de que algum empregado descuidado pudesse ter trocado os exames e me acalmou. Tudo seria feito pelo laboratório mais gabaritado do mercado. O próprio dono analisaria o tecido que, mais uma vez, me arrancavam do corpo.    

Ansiedade e medo embolados na espera do resultado. Chegou com o que já se sabia: o tumor, além de raro, é bastante agressivo. Cirurgia feita e a constatação de uma gravidade maior do que a indicada nos exames. A quimioterapia me enfraqueceu. Dias de insistentes vômitos, cabeça pesada e corpo ruim. Os cabelos, apavorados, foram embora.  

Bati em inúmeras portas, apelei para todos os santos. Cumpri estranhas promessas. Entrei forte no terreno das simpatias. Bebi de todas as crenças, estive em muitos altares. Corri atrás de curandeiros. Charlatões inescrupulosos me roubaram. Tornei-me paciente de cirurgias espirituais. Gente que nem imagino quem seja, os conhecidos, amigos e parentes organizaram incontáveis correntes de oração e energia.

Embasado pela fria lâmina do diagnóstico meu médico atacou: da ciência era inútil ter esperança. Dali por diante precisava me cuidar para que experimentasse o que nomeou como “uma boa partida”: examinar a consciência, visitar faltas, expiar os pecados cometidos, refazer laços, consertar erros. Muita gente, ele testemunhava, ao passar por situação semelhante havia se preparado vivenciando uma passagem bonita, leve e pacificada.

O corpo frágil reagiu como se agredido. Dirigia-se a mim como se fosse ré, alguém com pendências graves, dívidas a serem pagas. Como se fizera coisas das quais necessitava solicitar perdão. Será que pensava que fosse assassina, ladra, ou coisa pior, uma pedófila? Vontade, refreada pela excessiva debilidade, de mandá-lo à merda.    

Morbidez nos pensamentos de então. Imaginei haver chegado a hora de escolher e adquirir o caixão, definir flores que desejava sobre mim e músicas a serem cantadas no velório. Até a lista de quem julgava que se fizesse presente e dos que iriam faltar arrumando desculpas esfarrapadas foi feita.  

Aos poucos reparava que aquela proposta ia bem além do cuidar da cerimônia final. Que os vivos se incumbissem desta parte. As palavras que me machucaram começaram a ganhar novo sentido. Quando dei por mim era a vida que estava sendo passada a limpo.  

Visitei minhas pobrezas. A infância no interior, as angústias de mamãe, a custosa chegada da consciência de que papai nos abandonara. O novo marido em casa e suas violências. O tamanho da nossa escondida alegria no dia em que, desesperada de tanto choro, ela nos contou que seu homem fora assassinado numa briga. As brincadeiras inocentes, o corpo que rápido se modificava, os primeiros amores. A descoberta das montanhas de felicidade e depressões da tristeza.    

Veio à memória a partida para a capital. A alegria de haver passado no vestibular. O namoro com o colega que tanto me fascinava. O homem encantador se transformando em tirano. A angústia após a formatura com a crise a me lançar nos cursinhos preparatórios de concursos públicos. A doença e morte de mamãe, lá distante, vítima de tumor idêntico ao que cultivo – e que atestam ser raro. O trabalho maçante na saúde pública. O comodismo e a preguiça fazendo adiar por tanto tempo a libertação do monstro.  A imagem sorridente dele ao acelerar o carro na rua deserta. Meus ossos partidos e o doloroso processo de recuperação. A mentira ao afirmar haver sido atropelada por um automóvel que nem vi direito. O envolvimento excessivo com o trabalho. O reconhecimento dos superiores e o consequente crescimento na carreira.

A lembrança se aproxima. A noite da epifania. A certeza do milagre dos céus. Havia ganhado um anjo. Só que me esquecera de um detalhe: anjos têm asas e da mesma maneira que veio, ele também desapareceu. Anjo que me fez, tal qual mamãe a se desesperar com a partida do seu homem, chorar demais.  

O que seria de mim sem as viagens? Conheço bem os lugares mais badalados. Fui hóspede de excelentes hotéis. Em alguns deles era mesmo reconhecida. Minha paixão oculta: o jogo. Nas roletas e baralhos curti noites deliciosas à custa de fortunas. A infelicidade no amor foi compensada pelo sucesso no trabalho e finanças. Mesmo sendo funcionária pública dinheiro há muito deixara de ser problema.  

Não preciso o momento em que a máscara despencou. Só sei que aquela que considerava os erros da existência como minúsculos, se encontrava enredada numa teia de pecados terríveis. Sim, sou assassina. Mulher matadora, “serial killer” diriam os filmes policiais americanos. Eliminei, discreta e sutilmente, um tanto de gente e me pergunto: será que não sabia? Aonde chegava essa capacidade que possuo de esconder, de mim mesma, a malícia na qual estou metida?

Não foi por dinheiro que comecei a realizar as manipulações. Fazia pouco tempo que era responsável pelas filas de cirurgias e transplantes, quando uma amiga me contou do filho da sua faxineira. Pai desempregado e o diagnóstico enfatizava a necessidade urgente da cirurgia no cérebro. Escrúpulos às favas e o puxei lá de baixo para a cabeça da fila.  Meu raciocínio, tão lógico, foi que quando chegasse a hora da cirurgia, não haveria criança a ser operada.

Nem um mês se passara quando fui procurada por um paciente da fila renal. Impressionou-me o seu pavor da morte. Não o passei para o topo, postei-o ali pela quinta posição. Tem tempos em que a fila se torna ágil. Ela correra naqueles dias e em dois meses ele ganhara um rim novo. Surpreendeu-me querendo me presentear com um pingente e brincos de brilhantes. Demonstrei meu incômodo, dizendo-lhe que levasse de volta o mimo. Melhor seria que, agradecido, fizesse uma doação para alguma obra de caridade. Garantiu-me que tinha feito. Insistiu tanto que acabei por aceitar.

A partir dali, quando me vinham com essas demandas dava a entender que apreciava agrados. Desse jeito pude me enfeitar com lindas joias, mobiliei e decorei o apartamento. Descobri o fantástico mundo das artes. Insinuava para os clientes os artistas que me encantavam, os quadros que mais me deixariam agradecida e em quais galerias poderiam ser encontrados.          

A administração das filas transformou-se em negócio extremamente rendoso e profissional. Desenvolvi um programa que além de facilitar as mudanças oculta as pegadas. Em dinheiro só toquei mais de um ano depois. O assessor de um político importante ligou e agendei. Dia seguinte e lá estava o moço com voltas e mais rodeios para entrar no tema. Seu patrão tinha urgência de um fígado novo. Fiz expressão de indignada, sugeri a expulsão da sala. Considerava a impertinência daquele assunto e que ele só seria tratado com o doente. Mesmo assim dentro dos mais estritos procedimentos legais e éticos.    

Agi por maldade, reconheço. Orgulho besta de querer que o salafrário, corrupto contumaz, se humilhasse aos meus pés. Veio imediatamente. As voltas agora foram minhas até sugerir um valor absurdo. Falei para que o ladrão chorasse regateando e me ofertasse algo mais razoável. Só fez uma pergunta: em que banco no exterior e conta o depósito deveria ser feito?  

Adentrava um mundo novo. Até de conta fora iria precisar. Afirmei querer receber em dinheiro vivo. Ponderou que além do tamanho da mala, havia a dificuldade em levantar tal valor em poucos dias. Ponderei não ser problema meu e que quanto à mala grande, que aguardaria o assessor no domingo, dezoito horas, no desembarque do Aeroporto. Por lá bagagens não chamam a atenção.

Não havia semana sem que as listas sofressem alterações. Discretamente, que não dava pinta de nova rica, ia mudando de padrão, até chegar à cobertura a beira mar. Minha galeria de arte tornou-se exigente de muitas paredes. Nem sempre recebia altos valores. De pobre pedia pouco e umas vezes fiz o serviço de graça.  As contas no exterior chegaram a oito. Isto sem falar nos cofres espalhados por três bancos.  

Sempre fiz backups das filas guardando-os em cofre específico. Há três meses trouxe tudo. Invisto meu derradeiro tempo analisando as listagens originais e o que resultou delas. Levantei nomes que estavam quase lá e que foram ultrapassados. A fila vencera a maioria. Eu que imaginava que não poderia haver dor maior do que aquela que senti quando meu anjo se foi, me vejo envolta numa diferente, do tamanho do mundo. Não exatamente minha, mas de tantas famílias que perderam - por conta dos meus acertos - entes queridos.

Choro e tenho achado que a doença – estou na prorrogação do tempo oferecido pelo câncer – seja uma maneira de Deus me punir. Retorno ao pragmatismo, lamúrias ajudam quase nada. Montei um projeto devolutivo. Anonimamente tenho entregado muito dinheiro para asilos, creches e hospitais filantrópicos pelo país afora. Uma parte será corrompida novamente? Sem dúvidas que sim. Só que não tenho tempo suficiente para fazer análises e definir, criteriosamente, os destinatários da retribuição.  

A pinacoteca permanecerá aqui testemunhando o meu fausto, consciência e redenção. Que sejam entregues, no fim dos processos, aos museus para que o povo se beneficie e se encante com as belezas dos quadros. Quanto às joias, usando remetentes falsos, passei a enviá-las aos endereços das famílias dos perdedores. Outro tanto transformei em moeda para as doações e como ainda sobraram, dei um jeito de perdê-las pelos ônibus e metrôs.  

Termino aqui a história enviando-a para algumas autoridades que sei que não abafarão o caso. Peço desculpas a quem assassinei e às suas famílias. Será que encontrarei meus mortos do outro lado? Não quero ter medo deles. Dispensei a cuidadora dizendo que uma amiga estaria comigo no final de semana. Hora de tomar os remédios.  

Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 20/04/2017
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