Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos

O MENINO E A AVÓ DO MENINO
- Fala vovó, Nassif. Diga do jeitinho que lhe ensinei e você fez, tantas vezes, tão bonitinho para o papai e a mamãe. A criança, calada, olha, com cara assustada, para a senhora idosa que ele, até então, jamais tinha visto. Na área de desembarque do aeroporto a mãe da mãe do menino, ex-moradora de um país que chora a cada dia a tragédia da guerra, tenta se aproximar, sem sucesso, do arredio neto.

A chegada da matriarca, sem dúvida que é uma grande vitória. Samira e Omar, emigrados também por conta do mesmo problema, residem por aqui há menos de três anos. O Brasil, com sua vasta colônia de patrícios, era então considerada por eles como a terra da promissão. O que não sabiam era que teriam que levar em consideração a crise. Apesar da sólida formação, a queda da economia, somada às dificuldades com o idioma fizeram com que fossem empurrados rumo a ocupações de baixa remuneração. Não fora o apoio de uma instituição religiosa, jamais que teriam havido as condições para receberem, naquele começo de manhã de domingo, mãe e sogra.

O garoto, apesar de todo o treino, resiste bravamente não só a balbuciar vovó, mas também a se aconchegar em seu colo. Carrinho levando as bagagens até um determinado limite. Em seguida a caminhada, empurrando malas e carregando criança e sacolas rumo ao ponto do coletivo. A viagem de tantas paradas e a baldeação para a barca. A confusão para apanhar o novo ônibus, lotado, do outro lado da baía. Pouco mais de três horas e enfim estão acomodados no interior do pequenino apartamento. O menininho, dorminhoco de três colos, mantem-se todo alerta e animado. Mãe e pai se sentem cansados. A mãe da mãe, mais que exausta.

Mesmo assim – é preciso cuidar além das notícias, também da barriga – se assentam à mesa para um lanche. Vovó relatando um rol avantajado de desgraças. Umas somente observadas e outras tristemente experimentadas: dos parentes e amigos que perderam tudo, de tanta gente que estava desaparecida e dos que se podia mesmo chorar, eis que havia a certeza de que estavam mortos. Nassifinho, distraído num canto da sala brinca com o caminhão amarelo, o seu predileto dentre os carrinhos. De tanto empurrar, apertando contra o chão o brinquedo, uma roda acaba por se soltar. O menino se põe de pé e, passinhos vacilantes, vai até a velha. Numa mão a rodinha e na outra o veículo. Ao chegar joga para o alto os bracinhos e diz bem alto: – Jida.

Dona Salma, remoçada demais ao ser chamada de vovozinha, se vira de uma vez, bate as mãos nas pernas e solta uma gargalhada. As dentaduras saltam parecendo assustadas com aquela sonora risada. Alegria há tanto tempo represada dentro da alma daquela mulher entristecida. A criança despenca em câmara lenta. Larga a rodinha e esquece o caminhão. O objetivo agora é apanhar aqueles brinquedos diferentes, molhados, surgidos no chão.
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 27/06/2017
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