Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos

O CONTRATO (ec)

Sem ter o nome da pessoa e com indicações bastante vagas, foi somente no segundo dia da aventura que descobri a casa. Mesmo sendo mulher, ele não se abriu logo. Receava que eu fosse uma policial disfarçada. Constatando a dimensão do meu ódio foi, aos poucos, relaxando. Evitando os detalhes sórdidos, contei-lhe da minha decisão de contratar alguém para eliminar meu marido.   

Um casal de crianças, vez ou outra, passava pela sala brincando. Já conversávamos há um bom tempo quando sua mulher surgiu. Ofereceu-me um cafezinho, “coei agorinha mesmo”, completou. Estar ali me deixava a boca seca e foi de bom grado que aceitei. Saboreando o café na caneca esmaltada, me dei conta do absurdo daquela cena. Ele, perspicaz, leu o meu pensamento. Disse-me então que ela conhecia o seu trabalho e, consequentemente, o motivo de eu estar ali. Confidenciou-me, sorriso discreto nos lábios, que uma vez ela o tinha auxiliado diretamente, empregando-se como faxineira no apartamento de uma mulher que tinha precisão de morrer.
 
Aquela conversa, ao mesmo tempo que me interessava, ia me dando umas gasturas. Precisava terminar com aquilo. Fui direta ao ponto, indagando dele quanto me custaria o serviço? Respondeu-me, com uma calma de se dar aflição, a voz tranquila de quem parecia rezar. Só poderia me dar o preço depois de saber mais sobre mim e o meu esposo. Apontou, pela janela aberta, o meu carro caro. Adiantou-me que que se tratava de um indicador de que o trabalho não ficaria barato.  
 
“Rico custa mais, pois em um caso assim a polícia é mais fuçadora. Esforça-se na procura do dono da mão que tenha descansado o cujo. Famoso então é pior. Só pego o caso se for por muito dinheiro.” Reparou no meu olho circulando pela sala modesta e, mantendo o tom de voz, me afiançou ser homem de muitas posses. Que era só por motivos de segurança que mantinha assim as aparências, mas que a vida boa mesma eles tinham era quando passavam temporadas, esperando as poeiras baixarem, no fazendão do Mato Grosso.
 
Tive que falar de Alfredo, contei-lhe que era engenheiro, dono de uma pequena construtora especializada em construir galpões industriais, postos de gasolina e outras obras desse tipo. Solicitou-me fotos e precisava, também, dos endereços da casa, da empresa e da obra onde trabalhava. Loucura foi que em nenhum momento, receei de lhe passar tantos dados e de lhe entregar a foto, guardada na carteira, junto às de Melissa e Alessandra.
 
Precisava de uma semana para as pesquisas. Num papelzinho meio amassado me deu um número de celular. Que ligasse no sábado, meio dia e fizesse isto de algum orelhão distante dos meus caminhos habituais. No telefonema fecharíamos o contrato. Eu teria preços, condições e maneiras para lhe fazer o pagamento. Levantei-me, enquanto ele chamava a mulher e os meninos para se despedirem de mim. No portão recebi a última orientação: “A senhora nunca me viu, jamais esteve aqui e muito menos é sabedora das estradas que aqui a trouxeram. Entendeu, dona?”
 
Fiz exatamente conforme prescrito. Para ele dar cabo do meu esposo eu teria que lhe pagar quarenta por cento adiantado. E era muito dinheiro, pois conforme havia pesquisado, Alfredo era valioso. Combinamos o encontro para daí a três dias na Rodoviária. Seria uma sexta-feira, sete horas da noite. “Estarei na Plataforma C, a mais cheia. A senhora me leve, por obséquio, o contratado numa sacola. Faz como se despedisse de mim, me dando a bolsa como se fosse uma encomenda para ser levada para alguém. E, já sabe, nunca esteve comigo também por lá, certo, dona?”
 
A outra parte, deveria ser saldada até quinze dias depois do serviço realizado. As regras para o segundo pagamento me seriam dadas depois. Alertou-me para que mantivesse as rotinas, que o plano estava pronto e que os acontecimentos se dariam em uma semana. Desculpou-se antes de me passar uma última orientação, pois que já tivera problemas com freguesas no passado. “A senhora me faça o favor de chorar bastante no velório. Faz bem se desesperar no momento do enterro.”
 
A primeira parte do valor, esse dinheiro para ser entregue na Rodoviária, seria simples e fácil. Iria sacá-lo da aplicação e a facilidade era que ela estava só em meu nome. Grana que era fruto da herança de vovô. Para depois de tudo consumado, pretendia vender algumas joias. Escolheria somente dentre as que me foram presenteadas por Alfredo, claro. 
 
Encontrei-o como se fora viajar daí a pouco. Quem sabe iria mesmo? Veio até mim, me abraçando e dizendo que ficaria por lá – que nem imagino onde seja – por uma semana. Que levaria a encomenda, os abraços e as recomendações para todos.  Meu Deus, era impressionante a frieza dele. Corri para o estacionamento, apanhei o carro e fui para casa.  
 
Não consegui dormir. Uma ansiedade enorme para que a semana voasse e tudo tivesse acabado.  Tentei ler, assistir televisão, jogar paciência e nada. Deitada, virava para lá e para cá na cama e, de repente, estava frente a frente com o rosto de Alfredo a menos de dez centímetros do meu. Permaneci por um bom tempo a mirá-lo na penumbra, parecia sorrir.
 
Cansada pela noite em claro, ele veio a me abraçar assim de lado. Tentei escapar e Alfredo a me pedir para que o ajudasse no banho dos cachorros. Depois, aproveitando que as meninas estavam com os avós, poderíamos almoçar uma picanha e pegar um cineminha á tarde. O ímpeto inicial foi de negar, dizer que me deixasse em paz, que me sentia exausta pela noite insone.
 
A vida é tão esquisita. Dentro de mim uma voz sussurrava: “aceite”. Seria o demônio? Seria um anjo? O dia, foi maravilhoso. Eu o perdoara pelo que ele era, bem como também iria me esforçar demais para afastar Beto da minha cabeça e, mais ainda, do coração. A noite veio e ela foi mais que perfeita, simplesmente divina.
 
Acordei com o desespero a me sufocar. Disse para Fredo que precisava sair, resolver algo urgente e complicado.  Insistia querendo ir comigo. Custei a convencê-lo de que necessitava estar só. Sossegou quando garanti que logo estaria em casa. Numa banca de revistas adquiri um novo cartão. Dirigi até o orelhão e liguei, liguei e liguei. A insistente voz automática a me dizer que conferisse o número discado, que o telefone era inexistente.   
 
A angústia me deixava trêmula. Descumpri o prometido e fui para o subúrbio. Estacionei bem antes e continuei a pé. Toquei a campainha, bati palmas, soquei o portão de ferro. Da janela, a vizinha me gritou que tinham partido para visitar uns parentes no interior. Que o retorno se daria só dali a uns dez dias. Não tenho a menor ideia de como voltei para casa.  
 
“Meu bem, vamos viajar, sinto que algo terrível irá nos acontecer”, foi o que lhe implorei chorando. Alfredo sorriu me dizendo que esses presságios eram bobagem. Que quem está com Deus está protegido e nada poderia nos acontecer. Respondi, aos prantos, que a coisa era séria demais. Que viajássemos para a serra, ou para a praia, ele poderia escolher. Riu, a caçoar que devia ser sério mesmo, para que eu o deixasse decidir. De repente, passou a me olhar de um modo estranho.    
 
“Meu amor, suas alucinações voltaram. Acalme-se, amanhã iremos ao Dr. Bráulio. Ele lhe receitará uns bons remédios e logo estará boa.” Meu Deus, ele me achava louca novamente. E aquele desgraçado do médico iria me internar. A solução me veio de uma vez. Menti que estava bem, que fora só um sonho ruim que tivera. Que nada iria acontecer, mas que era uma boa ideia termos uma consulta com o psiquiatra.    
 
Ele me abraçou, disse-me para deitar e descansar um pouco. Pedi que fosse à padaria e comprasse uns pães bem gostosos e queijo. Enquanto isto eu prepararia um belo de um café da manhã. Ah, que desse também uma passada na feira e escolhesse umas frutas e um peixe para o almoço que eu iria preparar para a gente. Só aguardei que a porta se fechasse. Corri até a gaveta dos remédios, apanhei o frasco com o “sossega leão”. Quando muito agitada partia um comprimido ao meio e tomava. O suficiente para umas boas horas de sono pesado. No vidro havia pelo menos doze. Vinte e quatro vezes a minha dose, mais do que suficiente para resolver o meu problema. Aguardaria Fredo do outro lado da vida.
 
Saí do coma vinte dias depois. Quando já recebia visitas, perguntei às crianças por que papai não vinha com elas. Caíram, junto comigo, no choro. Teria que ser forte. As meninas, ainda mais do que antes, dependiam da minha fortaleza. Véspera da alta, era Magda a amiga escalada para estar comigo. Notei seu semblante preocupado e perguntei o que acontecia. O filho sofria crise de bronquite, mas o bom era que o marido sabia cuidar dele. Que não me preocupasse e até estava arrependida de ter me contado. Afiancei-lhe da bobagem de permanecer no hospital. Eu iria para casa daí a poucas horas e, mais ainda, a turma da enfermagem de plantão era a mais dedicada de todas.
 
Só se convenceu depois que a chefe da enfermagem lhe garantiu que se sentiriam honradas em cuidar de mim naquela noite de despedida. Nem dez minutos da saída de Magda tinham se passado, quando me anunciaram que um primo do interior viera me fazer uma visita rápida, eis que viajaria ainda naquela noite. A vida real a me apresentar sua cara mais horrenda. Ainda havia uma dívida a ser paga.

 
Este texto faz parte do Exercício Criativo - Quanto Vale uma Vida no seu País?
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Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 31/07/2017
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