Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos

VIDRAÇA DE SOLIDÃO (ec)

Depois da partida de Ari a vida, que já não estava sendo fácil, piorou mais ainda. Tornava-se, também chocha, sem nenhuma graça. Os filhos que já a visitavam tão pouco, revezavam-se burocraticamente. Vinha uma a cada mês e só para pagar a Maria e deixar o sortimento e os remédios para o mês.

Uma ou duas perguntas sobre como estava passando, se precisava de mais alguma coisa e já se preparavam para a partida. Sempre, nas pontas das línguas, uma desculpa de trabalho, de filhos, de maridos para irem embora. Queria sair, mas os joelhos duros, as pernas cansadas e a ladeira em frente, foram fazendo com que se fechasse.

Foi por esta época que redescobriu a janela azul. Tentou de todas as formas abri-la mas, emperrada pela falta de uso, recusava-se terminantemente a obedecer suas mãos. Ari, além de ter pavor de assaltantes, odiava as correntes de vento, enquanto ela as preferia sempre arreganhadas. A empregada também tentou algumas vezes e desistiu. Pediu para que Rosana - a mais acessível - mandasse um carpinteiro para resolver o problema. A filha sempre dizendo haver se esquecido, ou adiando a vinda do tal homem. Talvez tivesse herdado as raivas de ventos passíveis de provocar doenças e os horrores de ladrão do pai. Resignou-se, aos poucos, em ver o mundo pela vidraça suja.

Imaginava ser assim a tal da catarata. Tudo se tornando embaçado, como se constantes nuvens estivessem à frente daquilo que se queria mirar. Mais uma coisa a que se acostumou. A realidade assim vista, mesmo que não deixasse apreciar suas belezas, escondia, por outro lado, as suas feiuras. Mais um tempo, as manchas se adensando e o ver foi dando lugar à imaginação, o que lhe trazia umas alegrias. Encontrava pessoas queridas, o filho há tanto tempo morto, Ari chegando do trabalho com o embrulho de pão nas mãos, as filhas, aos gritos, correndo vindas da escola...

E havia até aqueles dias de visitar a infância e aí não estava mais naquela casa, diante da vidraça turva, mas em outra perdida em neblinas mais longínquas. A mãe, que nem conhecera, lhe aparecia e lhe fazia tranças nos cabelos a lhe dizer o quanto era linda. O pai, que lhe parecia tão austero, pondo-a no colo e lhe contando emocionantes histórias. A vida se refazia, ganhava cores, recuperava a graça.

Um dia veio a bola. Chutada por algum menino da vizinhança, ela despedaçou o vidro indo descansar na cama, junto ao seu travesseiro. Nunca que a vieram reclamar, aqueles malditos. Maria ligou e Rosana se apressou, não em arrumar o carpinteiro, mas em resolver o problema causado pela bolada. No dia seguinte lá estava o vidraceiro e a janela, mesmo não abrindo de jeito nenhum, tornara-se nova.

Esperou que ele fosse embora e partiu para o seu posto de observação. Descobriu então que o mundo estava feio. A dura realidade mostrava as casas pobres do outro lado da rua. A favela mais ao fundo, o morro lá adiante e que um dia tinha sido verde, agora mais se parecia com um deserto. Mas isto não foi o pior. Ruim mesmo foi que o marido, seu filho falecido ainda menino, a mãe a lhe arrumar os cabelos e o pai a lhe contar histórias, nunca mais vieram.

Este texto faz parte do Exercício Criativo - Bola na Vidraça
Saiba mais, conheça os outros textos:
http://encantodasletras.50webs.com/bolanavidraca.htm
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 25/09/2017
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras