Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos


OS ENCANTOS DA MINHA CIDADE (ec)

- Vovó, você nunca nos contou nada do seu passado. A verdade é que a sua infância é um mistério para nós. Sabemos em qual cidade nasceu, que viveu nela até os onze para doze anos e que depois veio parar aqui no Rio. Nunca nos disse nem uma palavra sobre a sua infância e adolescência.

- Ah, minha querida, passei esses setenta anos tentando me esquecer de tudo por lá e você me vem com uma conversa dessas?

- Então a senhora não se recorda de nada do que viveu? Apagou da memória as experiências daqueles tempos? É isto que quer me dizer?

- Claro que me lembro. Conto para você que até me esforcei bastante para esquecer, mas parece que quanto mais tentava apagar tudo, mais os horrores da minha infância se tornavam claros em minha memória.

- Nossa, vovó. A senhora usou uma palavra tão forte e trágica: horrores. A existência por lá foi tão ruim assim?

- Minha neta, vou lhe contar, bem por alto, um pouco do que me aconteceu. Não me peça para narrar os fatos com detalhes. Vou lhe falar algumas coisas somente, para que conheça o quão terríveis foram os primeiros anos da minha vida.

- Vovó, puxa. Não quero te fazer sofrer. Deixe para lá então. Esqueçamos essa minha pergunta e voltemos ao ensino desse ponto novo de crochê.

- Não, vamos em frente. Não posso e nem devo continuar fugindo do meu passado. Quem sabe, lhe contar um pouco do que passei (e que nem para o meu falecido marido jamais falei uma vírgula que fosse), poderá mesmo ser libertador para mim.

- Está bem, vovó. Para começar o relato, que tal me falar sobre os encantos da sua cidade... Sou toda atenção e ouvidos.

- Mamãe havia sido empregada da maior e mais importante fazenda do lugar e de lá acabou sendo expulsa, quando a Sinhá Dona descobriu que nós não éramos filhos de algum vaqueiro, ou outro empregado, mas do seu marido. Major Nhõ Chicão, o poderoso fazendeiro das terras onde morávamos.

- Expulsas com uma mão na frente e outra atrás? E foram viver como então?
- Naquele tempo não havia maneira de uma mulher pobre e sozinha poder se sustentar, que não fosse trabalhar como doméstica e esta possibilidade não mais havia para mamãe. A única saída que ela vislumbrava por lá então era a de vender o próprio corpo.

- Senhor do Céu. Que absurdo, vovó.

- Pois é, com cinco filhos, o rosto acabado pelo sol diário da lida nos canaviais e as pernas grossas de azuis varizes, mamãe não era mais possuidora de encantos para ganhar dinheiro na vida, gerando o sustento para a penca dos filhos.

- E como foi então que se viravam? De que jeito sobreviveram?

- Ah, a gente, eu e meus irmãos mais novos, de noite, caminhávamos mais de cinco quilômetros, até a fazenda. Os cachorros nos conheciam e não faziam barulho. Então, tendo mamãe escondida no mato a nos aguardar, roubávamos ovos no galinheiro, que eram depois trocados por farinha e feijão numa venda da vila. Zequinha, o mais novo, era escalado para roubar pintinhos, que sempre havia galinhas com seus filhotes sob as asas nos muitos ninhos por lá. Mesmo enfrentando as mães e tomando bicadas, ele era competente demais em arrancar os pintinhos de sob as asas. Desse jeito, fomos começando a nossa própria criação e assim, a vida foi, aos poucos, melhorando.

- Então tudo não era tão ruim. Esse tempo teve seus méritos. Até ri aqui ao imaginar a cena de vocês, um bando de crianças, a roubar ovos e pintinhos, com a minha avó, que jamais conheci, escondida no mato.

- Pois é, paramos os roubos, mas um dia alguém contou a Nhô Chicão que a criação que tínhamos era toda fruto de furtos no seu galinheiro. O homem apareceu numa tarde com dois policiais e vários capangas diante do nosso casebre. Levaram mamãe para a cadeia e as nossas galinhas para a fazenda.

- Que homem mal, vovó. Será que alguém com o coração duro assim merecia viver? Para mim a resposta é não. E o mais absurdo ainda nessa história é que se tratava, ninguém mais, ninguém menos do que o próprio pai de vocês.

- Sim, e todos nós, parece até castigo, nos parecíamos demais com ele. A verdade é que puxamos pouco os traços da nossa mãe. Mas a vingança não parou aí. Ele distribuiu os meus irmãos, eram todos meninos, entre os seus empregados, para que fossem criados e servissem depois de mão de obra em suas terras.

- A senhora também?

- Não, comigo foi mais trágico ainda. Entregou-me a uma mulher idosa que era a dona da casa onde moravam as prostitutas. Mandou que ela tomasse conta de mim e que melhorasse meu corpo. Assim que estivesse mais cheinha que o avisasse para que pudesse vir se servir de mim.

- Meu Deus, isto é pedofilia, abuso sexual de uma criança ainda, vovó. Devia ser denunciado à polícia. Por que a senhora não pediu socorro?

- Minha neta, deixe de ser inocente. Naquele tempo a lei por lá era o fazendeiro. Ninguém jamais iria questionar algo que ordenasse. Sofri muito naquela casa das damas – assim as pobres mulheres eram chamadas. Tinha que cozinhar, lavar as roupas das putas, limpar os quartos, servir bebidas aos clientes. Não parava um minuto sequer. Vários homens me quiseram, mas ao saber que eu estava reservada a Nhô Chicão, logo recuavam dos seus desejos, pois que ele era patrão de todos e considerado verdadeiro demônio.
- Mas vovó, não havia ninguém para lhe proteger?

- Ninguém, minha querida. Por lá eu estava irremediavelmente sozinha. Quando meus seios cismaram de aparecer e o corpo começou a tomar forma, a dona mandou aviso, sem que eu soubesse de nada, para o major e foi desse jeito que ele apareceu uma manhã para me levar.

- Levar para qual lugar, vovó.

- Ah, isto não soube e jamais saberemos. O que sei foi pagou à mulher, me mandou mantar em um cavalo baio e lá fomos nós. Eu trotando ao lado dele, levando pendurada uma pequena trouxa com meus trens: o meu outro vestido, uma lembrança de mamãe e dos manos, uns brinquedos, que eu era ainda de brincar com bonecas e o meu dinheirinho.

- Seu dinheiro? Mas a dona da casa, então, lhe pagava pelos seus serviços?

- Que pagar que nada. A velha nunca me deu um tostão. Mas eu arranjava um jeito de ficar com um dinheirinho, que escondia em um buraco que fiz na parede ao lado da minha cama, para quando fosse fugir, que esse era o meu plano. Quando saísse da prisão eu ia precisar de alguns cobres para pegar o ônibus na cidade e viver os primeiros dias, não é mesmo?

- Ah, que bom que a senhora era esperta.

- Pois é. Foi aí que aconteceu a salvação. No meio do caminho, Nhô Chicão teve a precisão de aliviar os intestinos. Você me perguntou se não havia ninguém que cuidasse de mim e eu tinha lhe respondido que não. Mas claro que havia sim. Tinha o meu anjo da guarda e tenho a certeza de que foi ele quem arrumou aquela dor de barriga no homem. Não desci do animal e fiquei olhando atenta até o momento em que ele apeou, amarrou o cavalo e foi andando rápido para trás de uma capoeira. Dei mais um tempinho para que ele arriasse as calças, meti os calcanhares nas costelas do bicho e caí no mundão de Deus.

- A senhora fugiu então?

- Saí esbaforida naquele cavalinho e leve como eu era, o bicho se tornava capaz de alta velocidade. O major gordo e grande, jamais que iria conseguir me acompanhar, mesmo sendo o seu cavalo famoso de ser bonito, ágil e forte. Num zap passamos pela zona onde até há pouco eu morava e cavalguei o dia todo. Umas duas horas depois do sol ter se posto, noite de lua fina, soltei o cavalo quase morto de cansado e me escondi bem próximo do asfalto. Na manhã seguinte, quando apareceu, lá na curva, a lotação dei sinal desesperada e ela parou. A primeira vez que entrei em uma. Paguei então a passagem e fui levada até o ponto final, a rodoviária da cidade. Vi que logo iria sair um ônibus desses grandões e bem coloridos. Nem olhei para aonde estava indo. Uma condução bonita assim só poderia me levar para algum lugar bom. Fui entrando, o dinheiro não dava para a passagem e uma alma boa inteirou para mim. Foi assim que cheguei aqui no Rio de Janeiro.

- Nossa, vovó, que aventura forte. Obrigada por me contar um pouquinho da sua história.

- Mas, minha neta, você está chorando?

- Sim, vovó. E bem orgulhosa de você. Quero saber ainda muito mais.

- Vamos parar por enquanto. Ah, ainda faltou lhe contar dos encantos da minha cidade natal, não é? Pois lhe digo agora: Encanto por lá foram a lotação que apanhei na estrada e que me levou para a cidade e a rodoviária na qual pude pegar o ônibus para cá.



Este conto faz parte do desafio do Encanto das Letras com o tema Encantos da minha cidade. Conheça outras obras com o mesmo tema em:http://encantodasletras.50webs.com/encantosdaminhacidade.htm 
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 25/03/2019
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras