Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos

A MOÇA DO METRÔ (ec)

Sozinho no escritório e já passam das vinte e uma horas quando Armando, enfim, decide ir embora. Além do trabalho ser muito, a viuvez acontecida há dois anos era um fator de incentivo das “horas extras”. Aquela terça-feira tinha sido intensa e se sentia cansado. Toma o metrô já com pouca gente àquela hora.

De repente, o desvio do olhar até então perdido no vidro em frente. Foi assim que reparou a moça a olhá-lo. Ela, bem alta, era dona de uma beleza diferente que Armando não saberia detalhar. Não era mais uma garota, devia estar com seus trinta ,, no máximo uns trinta e cinco anos. O vestido em tons escuros, tanto elegante quanto discreto, reforçava a constatação de que, diante dele, não se apresentava nenhuma menina. Mesmo tentando ser discreto, voltou o olhar na tentativa de investigar na memória de onde é que se conheciam.

Foi então que ela lhe sorriu. Surpreso, Armando respondeu e naquele momento o coração acelerou um pouco. Agora lhe vinha a certeza de que não se conheciam. “E ela me olha e me sorri. Meu Deus, isto me faz bem. Também não sou um homem de se jogar fora, apesar dos setenta anos, muita gente me diz que aparento bem menos. Cuido-me e talvez a moça seja alguém que goste de namorar homens bem maduros. Os pensamentos deixaram de lado os processos e apelações e se aceleravam para as bandas das mil possibilidades românticas em sua cabeça.

O trem ficou ainda mais vazio na estação de Botafogo e ele tomou coragem. Era agora, ou nunca. Levantou-se e tomou lugar ao lado daquela mulher que conhecera a tão pouco tempo e que mexia tanto com os seus pensamentos. Homem das antigas, cultivava os formalismos, reforçados ainda mais pela profissão. Ajeitou o paletó, alisou discretamente a gravata e se dirigiu a ela:

- Se me dá licença, senhorita.

Ela abriu ainda mais o sorriso e lhe respondeu:

- Claro, fique à vontade. Tenho que descer na próxima estação, mas deixo com você o meu cartão. Sou Mônica e atendo no meu apartamento em Copacabana. A minha hora custa R$ 300,00. Caso tenha interesse, é só ligar que terei prazer em recebê-lo.

A decepção foi tamanha que a mão custou a se mover para apanhar o cartão que lhe era oferecido. Antes de se levantar ela, com a voz num tom mais baixo, ainda lhe disse:

- Caso eu não atenda, é porque estou com cliente. Deixe recado que retornarei quando estiver só novamente.

Armando foi embolando aquele retângulo de papel, até que ele se tornou uma bolinha. Não satisfeito, abriu-o de novo e o alisou na coxa. Refeito, ele picou o cartão em pedacinhos minúsculos. Pela primeira vez na sua longa vida de adulto o doutor não utilizou a lixeira. Saiu pela rua a espalhar aqueles papeizinhos até que, ao chegar à portaria do seu edifício, não restasse mais nenhum. A lembrança e a saudade de Dinorah lhe apertavam o peito.

Este texto faz parte do Exercício Criativo - Se Me Dão Licença
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Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 06/05/2019
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