Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos


Vida espiritual e oração

A vida segue célere e chega um momento em que questões primordiais que se encontravam abafadas dentro de nós se manifestam: Quem sou eu? Para aonde vou? Que sentido tem? Nessa hora acontece o convite para que se faça uma opção. Ou se empurra de novo para dentro da caixa, fechando-a bem, as perguntas impertinentes, ou decide-se por enfrentá-las. O fato de buscar um grupo para refletir sobre o crescimento espiritual é prova de que se optou pelo caminho da resposta.

Manter as nossas indagações escondidas não significa que não gerarão incômodo. Vez por outra bastará que venham momentos nos quais nos deparemos com uma dificuldade maior, grande carência ou mesmo um fracasso e o som delas a se debater na caixa será ouvido. A opção do abafamento fará com que corramos, aflitos, a procurar algo que distraia e nos auxilie a esquecer que elas existem. Ter as questões existenciais presas é decidir pela vida ligada apenas na dimensão do ter. É ficar preso ao que as pessoas e coisas oferecem e ao que se deve devolver retribuindo-as.

Expor as questões e buscar respondê-las é optar pelo crescimento como ser humano. E crescer na dimensão do ser pessoa nada mais é do que desenvolver-se na espiritualidade. Muitas vezes somos empurrados para o crescimento por alguma crise. A perda de um ente querido, a constatação da fragilidade da vida, uma decepção amorosa forte, a queda da segurança econômica e até mesmo a constatação de que a juventude não é eterna...

É necessário que se tenha nova visão das crises. Vê-las como bem-vindas, pois podem se tornar excelente fator de crescimento. Por outro lado, há que se tomar cuidado com elas porque também podem se transformar em veneno mortal. Não duvidemos que da mesma forma que podem levar ao desenvolvimento elas possuem forças para nos matar não apenas de maneira metafórica (quantos mortos vivos seguem vida a fora), mas também de forma real.

Responder as questões, optando assim pelo crescimento é assumir a dimensão espiritual na existência É ligar-se também verticalmente à vida, para encontrar, em algum lugar do coração a transcendência. É sair de uma vida plana para outra nova na qual o coração humano enfim poderá ser saciado. Responder as questões dentro da espiritualidade inaciana é ver-se diante do Princípio e Fundamento da vida e esse encontro se dá a partir da oração.

Há um engano de muita gente ao achar que rezar seja simples e fácil. Fosse assim, como somos feitos para o infinito, toda a humanidade estaria acostumada à oração. Na prática sabemos que não é bem assim que acontece. Há vários tipos de oração. As mais usuais são: a de repetição, as lidas ou decoradas, as meditações e as contemplações. Em todas elas é preciso, para que se tornem válidas, que haja a busca do infinito dentro de nós, abrindo-nos para o outro.

Rezar pressupõe intimidade e isto nada mais é do que tornar-se íntimo de Deus. Rezar é conhecer Deus e conhecê-lo gerará, automaticamente, um maior entendimento de quem eu sou na minha realidade mais profunda. Por isto orar precisa carregar o convite de seguirmos para bem além da mera recitação de fórmulas. Não que essas sejam pouco importantes. Importa que, a oração de repetição, não se torne em algo mecânico, mas que leve para adiante a intimidade com o Senhor, não mantendo estacionado aquele que as faz. Em outras palavras significa que a oração tem o poder de transformar. Quem diz rezar e não manifesta mudança, é para se desconfiar da maneira como ora.

Rezar é buscar a intimidade com Deus. É colocar para Ele o que somos. Não para que saiba, Ele nos conhece totalmente, mas como modo amoroso de partilhar com Deus a maneira como conduzimos a vida. Nessa partilha buscamos a resposta Dele ao que vamos construindo na existência. Acaso seguimos certo, ou se erramos de trilha e vamos por caminhos tortos.

Rezar é saber-se pequeno e dependente e assim se colocar nas mãos de Deus. Essa postura não significa que Ele virá até mim e me conduzirá fisicamente pelas estradas. Não, nosso Deus é o Senhor da liberdade absoluta. Sou eu quem tomará as decisões dando os passos que devem ser dados. O que Ele, na oração, me ajudará é a escolher qual o melhor caminho a ser tomado, dando-me a coragem e a confiança para segui-lo.

Rezar é ter consciência do tanto de vozes interiores que carregamos e buscar calá-las, propondo-nos o silêncio interior. Deus é delicado e fala-nos muito suavemente. Em meio aos nossos barulhos tornamo-nos incapazes de ouvi-lo. Orar é recolher-se no coração e se abrir para que Ele nos diga o que necessitamos ouvir e o que Ele nos quer falar só pode ser o nosso bem maior.

Rezar é deixar que Deus seja Deus em nós. Abandonar-se no seu colo amoroso para que Ele conduza a oração. Sim, é Deus quem dirige quando rezamos e essa é uma das grandes dificuldades que se costuma ter para orar. Acostumados a buscar controle em tudo sentimos dificuldade em nos deixar levar pelo Espírito, soltando-nos na sua liberdade amorosa para que nos conduza.

Rezar é comprometer-se com Deus, com as pessoas e com a realidade na qual se está inserido. É estar ligado no mundo e sentir-se responsável por aqueles para os quais se está rezando. Rezar e não ter gestos concretos em relação à realidade pela qual se ora, é tão vazio quanto uma câmara de eco na qual apenas se ouve a própria voz.

Rezar é amar. Quem ama está em Deus, eis que Ele é Amor. Por isto, sempre que estiver amando, de alguma forma misteriosa – e muito linda – estaremos totalmente ligados a Deus e assim, obviamente, também em oração. Tudo feito com Amor remete a Deus e sem dúvidas é também uma forma de oração, mas é preciso ainda mais. Para crescer na intimidade com Deus é fundamental que se reserve um tempo e espaço para rezar, da mesma maneira que guardamos tempo e espaço para as pessoas amadas.

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Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 21/09/2011


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