Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos


Liturgia da Missa – Reflexões para a Mesa da Palavra – MIssa da Noite do Natal de Jesus - Há paz na terra. Deus está conosco! – Ano B 

Aconteceu que, naqueles dias, César Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se cada um na sua cidade natal. Por ser da família e descendência de Davi, José subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria. Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores, a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. O anjo, porém, disse aos pastores: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da coorte celeste. Cantavam louvores a Deus, dizendo: ‘’Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados”. Lc. 2, 1-14

A cena nos mostra um casal pobre, a mulher grávida já sentindo as contrações que prenunciam o parto, o marido aflito querendo arrumar lugar, onde possa nascer seu filho, a cidade estranha e as portas que se vão fechando para que a criança pudesse nascer, com cuidado e mais do que isto, dignidade. Vão de casa em casa e não encontram guarida. O menino acaba vindo à luz na periferia da periferia, num estábulo de animais. Aquele que é grande experimenta na própria carne o que é ser excluído. Deus chegou. Ele veio pobre e frágil e por isto muitos não o reconheceram. Que saibamos vê-lo em toda criança pobre e desamparada do mundo. Daremos glória a Deus nas alturas pela chegada do seu Filho, na medida em que cuidarmos da vida ameaçada à nossa volta.

A espera do povo de Deus termina em noite abençoada e de grande júbilo. Jesus enfim nasce em Belém da Judéia. Nosso Deus é gente como a gente. Criancinha frágil que, como tantas outras através de todos os tempos, sentiu as dificuldades de se nascer (e viver), quando não se é parte das classes mais privilegiadas da sociedade.

Deus está conosco, Emanuel, o esperado Salvador já vive na Terra. Aquela gente aguardava um messias forte e cheio de poder, com estratégias de ataque e defesa para libertá-los, principalmente do jugo romano, mas há na chegada de Jesus um paradoxo. O Deus que nos chega é uma criancinha frágil, nascida na periferia e pior ainda, em ambiente inóspito, eis que não havia por lá espaço para acolhê-lo.

Na verdade sabemos todos que é falsa a inexistência de tal espaço. Isto por, pelo menos, duas constatações que facilmente podem ser comprovadas. Uma diz que sempre é possível que se caiba mais um, quando o coração está aberto para acolher. A outra é que não havia espaço porque lhes faltava dinheiro. Por mais cheias que estivessem as casas e estalagens, com dinheiro na mão sempre se arrumaria um jeito de se ser hospedado. Não sejamos ingênuos quanto a isto.

Deus vem e não é reconhecido pelos dignitários do seu povo. Nenhum sacerdote, levita, doutor da lei, ou algum tipo de autoridade soube de imediato do seu nascimento. Ele chegou em meio aos pobres, já passando a todos nós o recado de que possui, desde a encarnação em Nazaré e o nascimento, uma especial predileção pelos pequeninos e abandonados.

O Menino Deus que chega envolto em trapos é de imediato reconhecido, por aqueles que a sociedade religiosa da época sente dificuldades de reconhecer. Pessoas com os quais os líderes tinham mil reservas como, por exemplo, os “pastores de Belém”.

A tradição foi fazendo com que víssemos nos pastores, primeiro porque Jesus utiliza com ênfase e muita propriedade a imagem do bom pastor e segundo porque é bucólico se criar a imagem de pastores e ovelhas, inseridos num ambiente rural. A dura realidade não era bem assim.

Essa não era uma profissão que contasse com olhares de beneplácito. Além de não cumprirem os preceitos da Lei. Era-lhes impossível cuidar do gado e ao mesmo tempo atender aos tantos preceitos e regras emanados desde o Templo. Por conta disto eram considerados impuros, estando assim à margem da religião oficial.

Eles não eram também muito queridos porque seguiam com bastante liberdade, os caminhos que os levavam rumo aos bons pastos, para suas ovelhas. Com isto não era raro que invadissem propriedades para dar de comer, ou mesmo oferecer água ao rebanho. Isto fazia com que a fama deles não fosse das melhores nas cidades e nos campos.

Até aqui o que vimos é relato piedoso e poético, que contemplamos inserido num tempo que, além de ir muito distante, está dentro de uma cultura e realidade totalmente diversa da nossa. Permanecendo apenas no que nos é contado por Lucas, em seu Evangelho da infância, sem dúvidas que teremos assunto e mesmo emoção suficiente para a celebração do Natal. Mas será que isto será suficiente? Certamente que esta simples contemplação do nascimento não é bastante para quem quer algo mais profundo e significativo.

É preciso dar um salto no tempo e no espaço para trazer, aquilo que aconteceu há dois mil anos, para a realidade concreta do nosso bairro, cidade e país. Atualizar o Natal para o aqui e agora é contemplar Jesus nascendo, em meio às dificuldades dos pobres e excluídos das cidades e nelas, principalmente, daqueles que estão vivendo em suas periferias. Olhar o Menino Deus dormindo na manjedoura requer uma contemplação mais ampla e que envolva a vida, com suas alegrias, sofrimentos e dificuldades dos pequenos e excluídos.

Esse olhar maior não poderá ser estéril. Ele deverá gerar compromisso com eles. Para o seguimento de Jesus não basta somente olhar o pobre e se condoer dele. É fundamental nesse olhar o exercício da compaixão. É ela que nos transformará o coração para que reconheçamos Jesus todos os dias desse ano que daqui a alguns dias irá começar.

Pistas para reflexão durante a semana:

- O que trago de presente ao Menino nesse Natal? 

- O que há nele de diferente a partir da preparação que fiz para vivê-lo de forma mais significativa?

- Que “Meninos Jesus” estou sendo convidado a contemplar na minha vida? 


1ª Leitura – Is. 9, 1-6
2ª Leitura – Tt 2, 11-14


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Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 18/12/2011
Alterado em 24/12/2020


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