Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos


Não tenham medo daqueles que matam o corpo - Reflexão sobre a Mesa da Palavra para o 12º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados! Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno! Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Quanto a vós, até os cabelos da cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais. Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus. Mt. 10, 26-33

Um jornalista guatemalteco, devido às denúncias que fez das violências cometidas contra os mais fracos, foi ameaçado de morte. Escreveu então uma carta dizendo o seguinte: “Dizem que estou ‘ameaçado de morte’. Talvez. Aconteça o que acontecer, estou tranquilo, porque, se me matarem, não me tirarão a vida. Eu a levarei comigo, dependurada no ombro, como um bornal de pastor. Dizem que daquele a quem se mata é possível tirar tudo previamente, como se faz hoje em dia: os dedos das mãos, a língua, a cabeça. Seu corpo pode ser queimado com cigarros, ele pode ser serrado, partido, despedaçado, esquartejado. Tudo pode ser feito com ele, e aqueles que lerem estas linhas talvez se comovam profundamente, e com toda razão. Eu não posso dizer que me comovo, porque desde menino Alguém soprou em meus ouvidos uma verdade incontestável que é, ao mesmo tempo, um convite à eternidade: ‘Não temais aqueles que podem matar o corpo, mas não podem tirar a vida’. A vida, a verdadeira vida, fortaleceu-se em mim quando, através de Pierre Teilhard de Chardin, aprendi a ler o Evangelho: o processo de ressurreição começa com a primeira ruga que sulca nosso rosto, com a primeira mancha de velhice que aparece em nossas mãos, com os primeiros fios de cabelos brancos que surpreendemos em nossa cabeça um dia qualquer, ao nos pentear; com o primeiro suspiro de nostalgia por um mundo que se desata e se afasta, de repente, diante de nossos olhos...”

De que devemos ter medo hoje em dia? Jesus, por três vezes, segundo o evangelista Mateus, vem nos dizer para não ter medo. Esses, da chamada Pós Modernidade, são tempos de grandes medos.

Vivemos uma grande cultura do medo e esta tem levado a uma busca pela proteção individual, bem mais além ainda do que aquela a ser propiciada pelo estado. A vida nos condomínios fechados, o crescimento das empresas de segurança privada, a desconfiança em relação às pessoas, sejam estas desconhecidas e até mesmo as “de casa”, demonstram esse tremendo medo atual.

Diante dos medos não se costuma reagir de uma maneira únicaa. Em frente a ele podem haver três maneiras, bem distintas, de reações. A primeira, com certeza, totalmente positiva eis que nos leva à precaução, à tomada de cuidados, a não sermos temerários, a planejarmos melhor as ações.

Mas há duas outras atitudes que tomamos diante do medo que são terríveis. A primeira é a paralisia. O medo que gera a não ação. O medo que nos faz ficar prisioneiros de nós mesmos, criando em torno ao corpo uma capa protetora, tal qual o caracol que se fecha em sua casinha portátil.

O medo que nos faz justificar a omissão pelo cuidado que é preciso tomar, para não ferir susceptibilidades, para não gerar incômodos. Esta paralisia acontece por um pequeno tempo. Logo em seguida ela faz com que se busque uma rota de escape.

O medo também pode provocar o ataque. É por medo que um gato acuado, salta sobre o pescoço de quem o deixa encurralado. Reparem que tanto o medo que causa a paralisia e a consequente fuga, quanto aquele que gera o ataque possuem o mesmo motor e a este se pode dar o nome de covardia.

Jesus nos fala de três medos bem específicos em cada uma das vezes nesse Evangelho a nos impelir para a coaragem da fé. O primeiro medo é o da verdade. Nada permanecerá escondido. Todas as verdades se tornarão claras e evidentes. Este medo da verdade o têm por exemplo os corruptos e aqueles que possuem vida dupla.

Diante de tantas denúncias de corrupção, assustados, podemos ter a impressão de que as coisas, hoje em dia, estão piores. Mas cabe diante delas se perguntar se não é porque, devido à internet e à imprensa, se tem uma maior transparência?

O segundo medo do qual nos fala Jesus é o medo da nossa história de hoje. Ele nos diz para que não tenhamos medo daqueles que matam o corpo, que pisam e arrasam com a casca. Eles não podem atingir o mais profundo de nós mesmos. Dizia o Pequeno Príncipe que o “essencial é invisível aos olhos”. Falando de outro modo, poderíamos nos fazer a seguinte questão: Se temos fé em Deus e professamos que Ele é Todo Poderoso, por que ter medo?

O último medo do qual nos vem falar Jesus, é o medo daquele que o nega diante do Pai. Nosso Senhor está a nos dizer que se o testemunharmos diante das pessoas (das quais não devemos ter medo) Ele tambos irá nos testemunhar um dia (dará a sua “carta de recomendação”) diante do Pai Bondoso.

Não podemos nos esquecer de que Mateus escreve seu texto para comunidades judaicas que viviam grandes medos, inclusive os da perseguição física que levava ao martírio. Hoje em dia, em nosso país, não temos mais necessidade desse tipo de medo. Mas até que ponto, por não sermos atacados na nossa fé e seguimento de Jesus, nos tornamos quietos e acomodados? O cristão é um eterno insatisfeito aqui na terra, eis que aqui não é o nosso lar.

Acho que para terminar vale lhes contar uma segunda história, também real. Lá pelo Século IV, nos tempos em que reinava em Roma o Imperador Constâncio (filho de Constantino aquele que tornou o cristianismo aceito), a Igreja experimentava naqueles dias uma grande expansão e aumento da credibilidade. Visto de mais distante aquele parecia ser um momento de graça. Afinal a Igreja tomava parte no poder e os cristãos, de perseguidos, passaram a ser admirados.

Santo Hilário de Poitiers, um homem santo que vivia nessa época, profeticamente, viu oculta sob este cenário bom a tentação e a denunciou numa oração que dizia, dentre outras coisas o seguinte:

“Oh Deus todo poderoso, que bom teria sido se me houvesse concedido viver nos tempos de Nero e de Décio... Pela misericórdia do Senhor eu não teria tido medo dos tormentos. Haveria até de ter me considerado feliz, em combater seus inimigos declarados e sofrer pela fé. Mas agora temos que lutar contra um inimigo oculto, insidioso, que nos acaricia o ventre, mas nos leva ao fogo do inferno...”

Vejamos que Hilário vem nos trazer um medo bom: O medo da mesmice, o medo de considerar que tudo está bem eis que a fé não está sendo combatida pela força. Em nossos tempos também precisamos ter este tipo de medo.

É preciso recear a nos acomodarmos e assim fechar os olhos e não perceber o diabo se introduzindo nas coisas que parecem ser boas. Inácio de Loyola, um santo que veio ao mundo cerca de mil anos depois de Hilário, irá nos ensinar que o capeta costuma se disfarçar em “anjo de luz” para nos confundir...

Para reflexão na semana:

- De que preciso ter medo?

- Como costumo reagir diante dele: sofro de paralisia, fujo, ataco?

- Professo Jesus pela vida, ou tenho uma fé intimista e que só se mostra nos templos?


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Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 17/06/2014


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