Fernando Cyrino

Caminhando e saboreando a vida.

Textos

Desde há muito perdi o gosto com a contagem do tempo. Anseio o final dos meus dias, mas esta semana ao ver os preparativos para a comemoração da data em que foi coroada a Rainha da Inglaterra, me recordei que nasci – mamãe fazia questão de me recordar isto – quando Elisabeth fazia vinte e cinco anos da sua coroação. Em homenagem a ela me chamei Elísio.  
 
Mamãe sempre desejou uma filha e eu, azar o dela, foi que vim. Caiu-lhe no colo, humor negro e escrachado, o Elísio que deveria ter sido Elisabeth. A história da minha concepção, obviamente indesejada, ela contava tal se fora um poema: Anjo, que veio voando feito um beija-flor, para tomar do meu mel e desaparecer para sempre, não sem antes deixar em meu ventre sua semente”. Maldito pai que ela nem sabe o nome.
 
Cresci num ambiente de pobreza. Fui menino que vivia de jogar bola, empinar pipas e sair com a turma. De escola não guardo boas recordações. Não gostava de estudar e em contrapartida as professoras me detestavam, simples assim. Quando achei que poderia me virar com as letras, bem poucas, que já tinha, me safei dela. Mamãe preocupada com a bebida, o crack e os homens bem mais do que comigo, só se deu conta de que não ia às aulas quando já chegara à adolescência.
 
No tempo em que meninos e meninas passam a se atrair de maneira diferente, me tornei pegador. Era o cara do grupo. As garotas quase todas passaram pelas minhas mãos e isto me provocava orgulho, além da inveja geral. Era respeitado na comunidade do Carrapicho. Rogéria, uma garota linda que se mudara para lá, era o desafio, só que esnobava aguçando a vontade de tê-la. Após conquistá-la reparei que as coisas estavam de outro jeito. Namorava diferente, havia descoberto o amor.   
 
Engravidou, ainda éramos adolescentes. Tivemos que cuidar do nosso destino, a mãe dela falecera e a minha não olhava para mim. Em casa tinha o exemplo de que o caminho das drogas não me levaria a nenhum lugar e então parti para a pista. Isopor no ombro e saco na mão passei a vender água, biscoito e cerveja nos engarrafamentos da avenida. Rogéria, animada por mim, tornou-se faxineira nas casas das madames. Arrumamos o barraco no qual recebemos Roger. Era tão vidrado nela que até o nome da criança queria que me recordasse o seu.
 
Fui subindo na vida. Em terra de cegos quem tem um olho é rei e eu via longe. Montei um boteco na divisa entre a comunidade e o bairro e logo ele havia se transformado em um comércio sortido, verdadeira mercearia. Estávamos bem de vida, voltei a estudar tomei gosto e até faculdade frequentei.  
 
Foi então que veio a carta. Nela estava escrito que Roger não era meu filho. Que eu ficasse esperto e reparasse como ele era parecido com Big Boy, o chefe do tráfico nos morros. A princípio ri daquela besteira deixada debaixo da porta do armazém. Como é que podia que Roger não fosse do meu sangue? O traficante de vez em quando aparecia para pagar as cestas básicas que mandava que eu distribuísse na favela. Peguei-me então reparando nele e foi aí que a dúvida começou a penetrar em minha mente. Roger era realmente parecido com ele.
 
Via o quanto era louco aquilo tudo, mas a suspeita era maior do que a minha força em sustentar a certeza da fidelidade de Rogéria. Aí chegou a segunda carta, de novo em letra muito arrumada. Esta só continha uma frase: “você acredita mesmo que o filho é seu?” Aquilo era muita maldade e eu não conseguia forças para resistir à desconfiança.
 
Ela perguntava o porquê do meu afastamento, dizia não entender por que andava tão nervoso com ela, dando-lhe respostas duras por qualquer coisa e, pior ainda, ela sentia que eu não tinha mais o carinho de antes com Roger. Menti dizendo ser impressão dela, que estava cansado e precisando de uns dias de férias. Que a gente podia tirar uma semana de descanso e ir para Ilha Bela, lugar que passamos a frequentar com a chegada da prosperidade.  
 
O inferno da minha vida chegou ao alto da montanha com a terceira carta: “não vai fazer nada?” Desesperado armei o plano macabro de viajar com os dois e retornar só. Já na estrada fui dizendo de um lugar lindo, uma ilha deserta só acessível pelo mar, que conhecera da última vez e que era ideal para passarmos o dia e tirarmos fotos.  Na madrugada seguinte estávamos no barco amarelo com o nome Amor Eterno grafado com letras azuis do lado direito. Rogéria sorridente e feliz, Roger dormia em seu colo.  
 
Fui remando para um lugar onde diziam haver uma fossa com corrente bem forte, constantemente a puxar para o alto mar. Chegando ao local fui ágil. Como se a abraçasse apliquei-lhe uma chave de braço. Ela na indefinição entre segurar o filho e tentar se livrar do golpe apertado cada vez mais. Começou a espernear, deixando cair Roger, que no fundo chorava desesperado. Rogéria desmaiada e enfiei um saco plástico em sua cabeça.  Roger me olhava com o rosto assustado e o peguei pelos pés enfiando-o na água. De vez em quando um espasmo me mostrava que a mãe dele ainda vivia.  Chegada a certeza das mortes retirei o saco e joguei os corpos para que a famosa correnteza os levasse.  
 
Precisava arrumar a cena e pulei na água, dei uns mergulhos, saltei de novo para dentro do barco e remei o mais rápido que podia. Fingia cansaço e aflição. Ao ver outra barca acenei e gritei pedindo ajuda. Expliquei que o barco tombara e que com grande esforço consegui desvirá-lo. Só que perdera os dois.
 
Depois do primeiro, chegou o segundo barco. Surgiu o terceiro socorro, este motorizado. Em pouco tempo havia bastante gente olhando da praia e várias embarcações envolvidas nas buscas. Fazia esforços para chorar e sou bom ator, consegui convencer aquele pessoal. Largaram-me na areia “que era melhor eu descansar”. Uma velha me abraçou dizendo que iriam ser encontrados rápido e vivos.   
 
A conversa dos pescadores de que naquele local tudo que caía no mar era levado para o meio do oceano era lenda. Cinco dias depois Rogéria foi achada presa a umas pedras uns dez quilômetros adiante. Alguém comentou que para afogado aquele corpo tinha a barriga lisa de quem não bebera água. Fiz de desentendido. A criança foi encontrada logo após do lado oposto das mesmas pedras.  
 
Uma semana depois velava Roger e Rogéria. O grande alívio sentido em seguida à execução do plano, tinha acabado naquele mesmo dia. A dúvida retornara com ímpeto tal que a existência tornava-se impossível de ser vivida. Voltou trazendo dentro dela um horroroso arrependimento. E se nada daquilo fosse verdade? Fofoca de moradora invejosa do nosso sucesso? De olhos fechados eu torcia para que aquilo acabasse logo, que a hora do enterro chegasse rápido.
 
Uma mão bateu no meu ombro. Mais alguém querendo me abraçar para me dar os pêsames por ter perdido a família. Levanto o rosto e me assusto. Big Boy ao meu lado. A chegada do bandido famoso fez com que as pessoas saíssem de fininho. Em menos de um minuto estávamos só ele e eu mais os caixões lacrados à frente. Na porta do velório seus seguranças me olhavam. O pavor me fazia tremer. Ele sabia de tudo e viera matar o assassino do filho e da amante. O incrível é que pensar nisso me acalmava enormemente.    
 
Big me abraçou e falou: “Cara, vim velar minha irmã e sobrinho. Mamãe e Rogéria jamais concordaram com a minha vida no crime. Nem minha ajuda elas aceitavam. Brigamos demais ela ainda menina e eu rapidamente tinha passado de avião do tráfico para soldado e gerente. Optaram por se mudarem da comunidade e mamãe faleceu de desgosto logo após. Só que o meu crescimento na carreira fez com que todas as favelas e morros fossem entrando para os meus domínios.  Mantive o compromisso de só a procurar secretamente. Ninguém precisava saber que Rogéria era irmã de traficante. De longe eu a vigiava para que ninguém tivesse a ousadia de lhe fazer algum mal.
 
Este conto foi escrito como exercício do Encanto das Letras com o tema família e parentes. Leia outros em: http://encantodasletras.50webs.com/familiaeparentes.htm
 
Fernando Cyrino
Enviado por Fernando Cyrino em 03/04/2017


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras